sábado, 12 de junho de 2021

Políticas Públicas e Educação Inclusiva

      

(Inclusive Education: Conceptualizing Inclusive Education & Conceptualizing it within UNICEF Mission)

                                                                                                                                                   Cibelle Nogueira Moreira

Graduanda em Psicologia 

Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)

cibelle.nogueira05@gmail.com 

 

É um fato que, ao longo da história, as pessoas com deficiência sofreram, e ainda sofrem, infelizmente, com a exclusão, sobretudo no que diz respeito ao acesso à educação de qualidade. Muitas vezes, mesmo quando há acesso a instituição educacional, se dá por uma via segregadora, seja em escolas especiais ou pelo modelo da integração. No primeiro caso, os estudantes com deficiência são apartados da chamada rede regular de ensino. Já no modelo da integração, embora estejam na rede regular, ficam separados em “salas especiais”. 

A título de contextualização, o conceito de deficiência, a partir da perspectiva inclusiva, refere-se, basicamente, a aspectos que são externos à pessoa, aspectos que são denominados de barreiras. Tais barreiras podem ser/estar, de forma geral, na arquitetura, comunicação, meios de transporte e, principalmente, em nossas atitudes.

Sendo assim, partindo da premissa dessa perspectiva, a deficiência seria o resultado do conjunto de fatores, seria a soma entre as limitações do indivíduo e as barreiras atitudinais e dos espaços físicos.

Uma alternativa para ultrapassar essas barreiras seria a acessibilidade, pois através dela é possível a eliminação de tais barreiras físicas e sociais, que atrapalham e impossibilitam a participação efetiva de pessoas com deficiência na sociedade, de forma geral. Tornou-se uma ferramenta essencial para a inclusão, sendo, assim, necessária em todas as dimensões e contextos da vida cotidiana.

As discussões na área dos direitos humanos progrediram nas últimas décadas e, diante disso, especificamente, o paradigma da inclusão emergiu. Como previsto em leis e documentos internacionais, é um direito básico dos estudantes, com ou sem deficiência, a garantia de acesso a uma educação de qualidade e, principalmente, frequentar o mesmo ambiente educacional, conjuntamente, sem exclusão, discriminação e tendo seus respectivos direitos resguardados.

As políticas públicas no contexto da educação inclusiva tratam de todas as questões de elaboração e coordenação de leis relacionadas à preservação dos direitos educacionais de forma integral. Porém, voltadas de forma específica para as populações vulneráveis que sofreram (ou sofrem) exclusão ao longo da história do nosso sistema educacional.

 Ademais, a garantia desses direitos é posta em prática a partir de ações articuladas e da participação direta de todos, indo do Estado até a comunidade local. Isso requer, fundamentalmente, uma reestruturação do nosso sistema de ensino, a elaboração e, principalmente, a manutenção de um conjunto de serviços que atuem articulada com as instituições de ensino. Essa nova estruturação demanda que a área educacional desenvolva seu trabalho a partir de uma outra perspectiva, que seja verdadeiramente inclusiva de modo a ensejar atitudes sem segregações.

Salientamos que apenas o desenvolvimento de políticas públicas educacionais consistentes não é o bastante, pois depende também da implementação, a manutenção e fiscalização. É importante ressaltar que os recursos financeiros são imprescindíveis para que essa efetivação aconteça, dado que um dos principais fatores que favorecem a realização prática da política é o investimento financeiro. Uma vez que a política é criada, recursos financeiros governamentais são destinados especificamente para essa finalidade. Há que reivindicar a garantia de recursos para as políticas (inclusivas) tenham sustentabilidade e efetividade.

Outro fator imprescindível é o gerenciamento feito a partir de uma das articulações dos mais diversos campos que constituem a nossa gestão pública. Ou seja, a elaboração e planejamento de ações articuladas entre setores como o da educação, saúde e transporte, por exemplo. O trabalho feito de forma intersetorial é um ponto indispensável para que as políticas públicas alcancem, na prática, o sucesso desejado.

Diante disso, é de vital importância a elaboração de mais políticas públicas voltadas para a perspectiva inclusiva, e também, para que não se perca o progresso alcançado, a reformulação e atualização das já existentes, com objetivo de torná-las ainda melhores.

Por fim, no momento em que chegarmos ao ponto de realizar a elaboração e estabelecimento de políticas públicas educacionais que sejam capazes de respeitar plenamente o ser humano em sua totalidade, suas diferenças, e que resguardem seus direitos, viabilizem o acesso a educação, a aprendizagem e o convívio conjunto, seremos capazes de afirmar que, de fato, as políticas se encontrarão exercendo sua função.

 Este texto é produto do processo vivido no âmbito da disciplina Educação e Políticas Públicas Inclusivas, do curso de Psicologia, da Univasf, tendo como prof. Marcelo Silva de Souza Ribeiro.

Políticas públicas e alfabetização no Brasil: em que situação estamos?

                                                                     

(MissHibiscus/iStock. Disponível em: <https://super.abril.com.br/blog/literal/aprender-a-ler-depois-de-adulto-altera-o-cerebro-drasticamente/>)

                                                                

                                                                                                                                                    Sabrina Matias de Castro

Graduanda em Psicologia

Universidade Federal do Vale do São Francisco

sabrinamatias18@gmail.com

 

 

         Segundo a pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentada por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação em 2019, o Brasil tem uma taxa de 6,6% de analfabetos. Esse número equivale a 11 milhões de brasileiros que têm idade a partir dos 15 anos e não conseguem nem escrever um simples recado. Esses dados são preocupantes e refletem o cenário delicado da educação no país. Apesar disso, há ainda uma esperança, já que os números sofreram quedas ao longo do tempo. 

 

      Sabe-se que a alfabetização consiste no aprendizado do alfabeto e sua utilização como código de comunicação, bem como a apropriação desse sistema e compreensão, ou seja, domínio da leitura e escrita. Para que esse processo ocorra de maneira efetiva é necessária uma parceria entre o ambiente escolar e a família. Com esse objetivo, surge a Política Nacional de Alfabetização (PNA), apresentada pelo Ministério da Educação. Essa política traz propostas como “Tempo de aprender” (programa sobre alfabetização destinado principalmente às crianças da pré-escola e do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental das escolas públicas) e “Conta pra mim” (práticas e orientações para pais e cuidadores para incorporação da literacia familiar), objetivando ampliar a qualidade dos processos de alfabetização e os seus resultados no cenário brasileiro.

 

    Como citado anteriormente sobre as políticas públicas na questão da alfabetização, atualmente, no Brasil, é possível encontrar diversos desafios, tais como o método de ensino e a falta de incentivo familiar. Isso porque muitas vezes a escola utiliza meios que não são tão eficazes para os alunos, dificultando ainda mais o entendimento. Um exemplo de caminho para melhorar esse cenário é a utilização de meios lúdicos na hora da explicação, isto é, mostrar ao estudante determinado assunto colocando-o dentro do cotidiano dele, seja através de exemplos práticos ou até mesmo por meio de brincadeiras educacionais. Além disso, existe ainda a dificuldade de engajamento das famílias nesse processo por motivos que variam desde a ideia de que a responsabilidade é toda da escola, até o fato de que a família não dispõe de informações ou meios para ajudar nesse processo, seja por falta de tempo, ou por dificuldades encontradas no seu próprio processo de alfabetização.

 

Este texto é produto do processo vivido no âmbito da disciplina Educação e Políticas Públicas Inclusivas, do curso de Psicologia, da Univasf, tendo como prof. Marcelo Silva de Souza Ribeiro.

 

 

Para saber mais: 

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/17270-pnad-continua.html?edicao=28203&t=resultados

 

http://alfabetizacao.mec.gov.br/#ancora

 

 

Esforços coletivos para remediar e prevenir



(Retirado da internet. disponível em: http://fgvclear.org/pt/pesquisa-do-fgv-eesp-clear-mensura-impactos-da-pandemia-na-educacao-brasileira/)


                                                                                                                                  Isabele Tenório dos Santos

Graduanda em Psicologia 

Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)

isabe22le@gmail.com

 

A pandemia da Covid-19 impôs situações inesperadas e extraordinárias a grande parte do mundo. Os efeitos sociais das respostas de vários países, inclusive o Brasil, podem ser vistos e sentidos no formato de sobrecarga do sistema de saúde, perda de empregos em massa ou adaptação para o home office, dentre várias outras mudanças geradoras de preocupação, estresse ou fadiga nas pessoas. Embora os impactos pareçam atingir com mais força a camada adulta da população, a verdade é que eles também têm o potencial de afetar o desenvolvimento das crianças e jovens em curto, médio e longo prazo.

No âmbito da educação das crianças e adolescentes, um relatório da UNESCO aponta que 191 países tiveram suas escolas fechadas, afetando cerca de 70% da população estudantil mundial - o que equivale a mais de um bilhão de pessoas. Ainda segundo a organização, mais de 100 milhões de crianças estão sofrendo rupturas em seu processo de alfabetização, prejudicando seus níveis de proficiência e ameaçando ganhos de mais de 20 anos de esforços globais em prol da educação XXX. É importante nos atentarmos para o fato de que os danos à educação podem ser cumulativos, mesmo com o retorno às escolas, caso não haja uma estratégia sólida de identificação e acompanhamento sistemáticos dos alunos e os recursos necessários à remediação escolar não sejam ofertados.

Neste cenário de fragilização dos sistemas educacionais, as escolas precisaram contar, mais do que nunca, com o apoio das famílias e comunidade. Quando não bem acompanhadas e amparadas, as famílias podem se sentir sobrecarregadas com o aumento de responsabilidades dentro do cenário atual, pois já enfrentam estressores outros fora da educação de suas crianças, como o medo pela contaminação pelo Coronavírus e aflições de natureza econômica. 

Alguns dos desafios encontrados pelas famílias foram a falta de preparação para assumir o monitoramento em tempo integral da educação das crianças, a mudança da rotina familiar, a mudança nas relações interpessoais e na organização de sua rede de apoio. Esses e outros fatores podem levar a uma desestruturação no suporte oferecido à escolarização de suas crianças e adolescentes.

Pensando na atual situação que põe o processo de aprendizagem de muitos educandos em vulnerabilidade, estratégias diversas devem ser e vêm sendo adotadas tendo em vista a redução do risco de interrupção da educação. Essas abordagens são pensadas para favorecer a efetivação da escolaridade em médio e longo prazo, então apresentam uma perspectiva multirrisco e são orientadas para a sustentabilidade. Elas são o que a UNESCO denomina planejamento educacional sensível a crises (PESC). 

Esta abordagem prevê a redução e a gestão de riscos à educação em tempos de crise social, englobando estratégias de planejamento e oferta de ensino que ocorrem no pré, durante e pós-crise. Sua prioridade é assegurar a continuidade da oferta de ensino aos educandos, estando sua qualidade alinhada com uma perspectiva de mitigação e remediação de danos possíveis em situação de crise.

Desse modo, o PESC chama a atenção para que tipo de resposta emergencial podemos dar em uma situação similar a essa que estamos vivendo agora, implicando em uma análise dos recursos de contingência disponíveis no setor da educação. No contexto da COVID-19, isso pode incluir uma revisão dos programas existentes de ensino aberto e à distância e dos recursos disponíveis para ampliar a oferta e a acessibilidade de tais programas. Além disso, implica em olhar também para a capacitação dos profissionais de educação, haja vista a explicitação de que ter os recursos não é sinônimo de saber usá-los da melhor maneira possível que o cenário atual nos trouxe, onde muitos alunos e professores apresentaram dificuldades para se adaptarem ao ensino remoto.

Outro ponto importante de se considerar é a identificação e a superação de padrões de desigualdade e exclusão na educação, bem como práticas culturais e sociais prejudiciais. Com o fechamento das escolas, muitas crianças que provinham de ambientes vulneráveis e marginalizados se viram tendo ainda menos recursos para manter sua educação e qualidade de vida.  É necessário pensar em quem se encontra excluído do aprendizado digital - seja por motivos de não ter acesso à tecnologia necessária, seja por motivos outros muito mais ligados a correntes de pensamento mais conservadoras e machistas. 

Tome por exemplo o caso do Brasil, onde mais de 26.500.000 meninas tiveram sua escolarização interrompida ou prejudicada com o fechamento das escolas, e quanto mais avançada no ensino básico maiores as suas chances de interromperem seus estudos. É fundamental refletir sobre os impactos específicos do fechamento das escolas nas meninas e em outros grupos vulneráveis, assim como oferecer soluções adaptadas a cada caso, tentando resguardar e garantir ao máximo os ganhos obtidos com a inclusão escolar dessas parcelas da população. 

Assim, é fundamental que as medidas adotadas para efetivar o ensino remoto levem em consideração o público afetado, a voz dos profissionais que atuam na área (professores, gestores e outros profissionais da educação) e as capacidades existentes. É necessário também uma coerência entre as esferas educacionais nacionais e subnacionais. O planejamento no contexto da COVID-19 requer também o engajamento das comunidades e famílias para identificar estratégias eficazes de aprendizagem remota e comunicação. Os esforços devem ser coletivos para evitar retrocessos educacionais e sociais, e evitar a perpetuação de desigualdades e práticas discriminatórias. 

A pandemia atingiu e tem atingido mais fortemente famílias que já estavam em situação de vulnerabilidade socioeconômica e marginalização, acentuando diferenças sociais previamente existentes. Para prevenir impactos ainda mais graves em quem mais precisa das oportunidades de escolarização, é necessário fortalecer o sistema de educação para torná-lo mais resiliente e funcional diante das adversidades neste período de pandemia. No entanto, quando pensamos que a escola faz parte do funcionamento de toda uma sociedade, em nível macro, e também é contexto de desenvolvimento humano, em nível micro, torna-se evidente que este processo não pode ocorrer isoladamente, mas, sim, lançar mão de uma abordagem intersetorial.

É preciso que o mundo se ajuste a essas novas realidades, com mudanças nas políticas não só de educação, como trabalho: ajuste de horas trabalhadas, suporte organizacional para as famílias; saúde com ações de educação em saúde e oferta de assistência à saúde mental; assistência social e proteção às crianças e adolescentes, de maneira articulada. 

 

Este texto é produto do processo vivido no âmbito da disciplina Educação e Políticas Públicas Inclusivas, do curso de Psicologia, da Univasf, tendo como prof. Marcelo Silva de Souza Ribeiro.

Para saber mais: 

UNESCO. Planejamento educacional sensível a crises - Nota Informativa ao Setor da Educação. 2020. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000373272_por

 

UNESCO. One year into COVID: prioritizing education recovery to avoid a generational catastrophe.  2020. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000376984?posInSet=9&queryId=N-794add76-dc4f-4681-bffb-70ef96557fee


Pedagogia da autonomia e experiência de ensino vocacional: aproximações


          



                                                                                                                                                  Ana Leticia da Silva Graduanda em Psicologia 

Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)

analeticiapsico@gmail.com


 

Paulo Freire é um renomado escritor e educador pernambucano, considerado o patrono da educação Brasileira, cujas contribuições reverberam mundo à fora. Em sua famosa obra “Pedagogia da autonomia”, publicada em 1996. Paulo Freire se dispõe a discutir as práticas que entende como essenciais aos saberes docentes. Infelizmente há alguns questionamentos acerca dos legados freireanos. Nada mais ideológico do que esses questionamentos, pois as evidências das contribuições da obra de Freire ao campo da educação são inúmeras.

De modo particular, e de relevância histórica, o documentário “Vocacional: uma aventura humana”, conta sobre a experiência única dos ginásios vocacionais em São Paulo na década de 1960. Escolas públicas com concepções e propostas educacionais libertadoras no esteio das influências freireanas.

É possível identificar convergências entre algumas ideias freireanas e as concepções libertadoras e, consequentemente, as práticas educacionais dos ginásios vocacionais. Ambas compartilham da visão da pessoa enquanto agente transformador de si e da sociedade. Ao longo da obra mencionada, Paulo Freire defende sua visão do sujeito como ser histórico, social, inacabado, e que se sabe como tal. É justamente no reconhecimento do inacabamento que reside seu potencial criador e transformador, é ele que dá sentido e permite a educação porque é a partir daí que se inicia o constante movimento de busca, ou melhor, uma aposta na curiosidade dos estudantes como marca de respeito e promoção da autonomia. De igual modo, é permeado por essas noções que os ginásios vocacionais desenvolvem suas práticas pedagógicas e seus processos de aprendizagem. 

Freire tece críticas a concepção bancária da educação, que entende a prática pedagógica enquanto a pura transferência do conhecimento do educador ao educando. Essa forma estática de concepção não abarca o diálogo, a espontaneidade, a dimensão política da experiência de aprendizagem, impedindo assim a criação de possibilidades para construção real do conhecimento. Construção essa que acontece de forma dialógica, horizontal, respeitando o saber que o educando possui, de modo que este ensina ao aprender e o professor aprende com aqueles aos quais ensina. 

Nessa perspectiva, o papel do educador é incentivar a curiosidade e a autonomia por parte do educando. É preciso que esteja disposto a ser questionado, chamado à dúvida, pois a formação se dá de maneira crítica e dialógica. Tanto o professor quanto o estudante são igualmente sujeitos de um mesmo processo. É por estimular a criatividade do estudante que este aflora seu potencial criador e por sua vez enriquece o ser professor. 

O ensino vocacional nos ginásios vocacionais se organizava de forma que não havia centralidade de conhecimento no papel do educador. Ao começo de todo ano letivo acontecia uma reunião onde pais, alunos, professores e restante dos funcionários juntos, decidiam quais temas seriam estudados naquele período, de forma que os alunos tinham papel ativo sobre seu processo de aprendizado, e ainda mais, a comunidade era integrada à escola. Os estudantes eram constantemente chamados a se auto avaliarem e avaliarem seus processos, o que permitia que pensassem sobre si. 

As avaliações não se resumiam apenas a provas, abarcavam todas as produções que os alunos faziam, seus papeis de liderança ou não e o trabalho dentro do grupo. Não há espaço e valorização apenas para a reprodução mecanicista de um conhecimento prévio, o que há é a visão do ser humano como ser multifacetado, em constante diálogo e cooperação com o outro. É através da relação dos educandos entre si e de todos com o educador, que estes se assumem como seres sociais e históricos, pensantes e comunicantes. 

Os alunos desenvolviam trabalhos sociais, de maneira interdisciplinar em serviços e espaços públicos, o que agia no sentido de promover à integração para com a comunidade. Tudo isso converge com o que Paulo Freire defendia quando dizia que acerca da necessária ligação entre os saberes curriculares e as experiências sociais dos alunos. 

Em determinado momento do documentário, um professor fala que foi durante essa experiência no vocacional que se descobriu como educador. Paulo Freire aborda a necessidade do professor de querer bem aos seus alunos. Esse ‘querer bem’ não como uma obrigatoriedade, nem como um desvio às questões éticas de seu papel, mas como um abraço à alegria natural decorrente da experiência docente, experiência essa que é essencialmente afetiva porque é da ordem do cuidado, da criação, da transformação. Nas palavras mesmas de Freire: “Transformar a experiência em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador” (FREIRE, 1996, p.16).

 

 

Este texto é produto do processo vivido no âmbito da disciplina Educação e Políticas Públicas Inclusivas, do curso de Psicologia, da Univasf, tendo como prof. Marcelo Silva de Souza Ribeiro.


 

Para saber mais: 

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa.  São Paulo: Paz e Terra, 1996.

 

VENTURI, T. (Diretor). Vocacional: Uma Aventura Humana [Filme]. São Paulo: Olhar Imaginário & Mamute Filmes, 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nJvR5DyYBOU&t=885s&ab_channel=PaulaFreirePaulaFreire

 

sábado, 17 de outubro de 2020

terça-feira, 16 de junho de 2020

A ESCOLA DE CRONOS: O “DEUS” QUE DEVORA CONTEÚDO E GERA ANGÚSTIA EM TEMPOS DE PANDEMIA



Em relação com o que estamos vivendo nestes últimos meses, observamos um cenário mundial inusitado, onde somos afetados pela pandemia decorrente da COVID- 19. Pode-se refletir que o tempo vivido e o tempo cronológico estão em real descompassos. Os números de casos de infectados pelo coronavírus em nosso país, está cada vez mais alarmante e todos estamos impactados, inclusive no meio educacional, pois, além das angústias próprias dessa situação, há obrigatoriedade de cumprimento da carga horária e dias referentes aos conteúdos escolares, via atividades remotas, numa ação que supõe garantir o ensino e a aprendizagem.

Na Lei de no 9.394 de 1996, também conhecida como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é sinalizado em seu artigo 24 e 31, que no ensino fundamental e médio e na educação infantil, respectivamente, o ano letivo será organizado por intermédio da carga horária mínima de 800 horas, distribuídos em 200 dias letivos. Os professores, nesse caso, são incumbidos de ministrar os dias-letivos, além de horas dedicados ao planejamento, avaliação e a formação profissional.

Alguns meses do ano letivo 2020 se passaram e o desafio do cumprimento legal é posto à prova, demandando respostas à comunidade escolar que podem ter interpretações variadas. Há um tempo que está sendo perdido? O tempo está sendo devorado? Ou seria tempo de criação e valorização da experiência vivida?
Lembremos que a escola está para-além dos seus muros, e que é lugar facilitador das aprendizagens, sendo espaço de convivência e, por tudo, formativa. Nesse sentido, qual melhor interpretação, ou ainda, qual resposta poderia a escola produzir, no veio legal, considerando a situação angustiante que todos estamos a viver?

Na mitologia grega, Cronos é conhecido por ser o deus do tempo, que controla o início e o fim de tudo, que consome as coisas, as pessoas e rege os destinos. O deus Cronos destrona o senhor do céu Urano - seu pai, para comandar o princípio e o fim de tudo. A escola disciplinar, conteudista, adestradora de corpos, como outrora já nos apontava Michel Foucault, está bastante envolvida em suprir um tempo que considera perdido perante o perigo à sua porta. A escola, pelo viés Cronos, destrona a vida, marcando-a com a exaustão de envio de “tarefas e mais tarefas” em regime domiciliar, levando ao ambiente doméstico o “correr contra o tempo”. As escolas impõem, ao assistirem aulas remotas no modo virtual, uma preparação do ambiente doméstico comparado a escola, inclusive, em alguns casos, obrigando os alunos a utilizarem o fardamento escolar, orientando os pais a fotografar e comprovar que o tempo estava sendo destinado a execução das tarefas.

O Cronos neste tempo de pandemia vai ordenando que todos, absolutamente todos, estejam em torno do foco conteudista, de tentar dar conta de uma lista de conteúdos que talvez, para muitos, nesse dado momento, seja vazio de sentido, já que o saber se dá na relação de “ensinagens e aprendizagens”, em que as engrenagens funcionam pelo o envolvimento de todos.

Após destronar o pai Urano, todos aqueles que nasciam de sua mãe Gaia eram devorados por Cronos, assim também nossos estudantes estão sendo “devorados” por uma série conteudista e disciplinadora, para sanar a preocupação de pais quanto ao “investimento escolar”, as ameaças em ter que passar de ano e estar competitivo para o ENEM ou para as avaliações educacionais, que visam produzir índices.

Cronos é o devorador do destino, assim há picos de ansiedade em todos os lados, e na família não é diferente, já que, atualmente, o lar virou também o home office. Para uns é a experiência da crueldade vivida na própria condição de trabalho docente, que já era precarizado. Os professores, arremessados à boca devoradora de Cronos, têm que atender a todo momento demandas de alunos e pais via as telas, como um buraco negro a sugar suas energias.

Se antes o professor tinha um tempo já reduzido para recompor sua vitalidade, nos raros momentos de descanso, agora o seu tempo não o pertence mais, definitivamente. As cobranças ilimitadas do sistema educacional, seja na rede privada ou pública, via de regra, consomem o tempo vida...

Diante disso, podemos refletir sobre várias questões, dentre elas elencamos: esse contexto de isolamento social está sendo considerado como uma “perda de tempo” para os escolares e famílias? O que pensam os estudantes sobre? Será que há aprendizagens do viver capazes de agregar a essas e as próximas gerações diante da gravidade de tudo o que vivemos? Vale a pena continuar realizando aulas remotas para suprir o que se considera “tempo perdido”?

Cronos é o deus que controla o tempo desde o nascimento até à morte. Ele é cruel, escraviza os seres dentro de seu tempo, nos mantém na sensação do tempo que passa e se perde. Em nossa sociedade sente-se profundamente isso porque vivemosenquadrados nas horas contadas do relógio, encaixados nas expectativas sociais e tantas vezes nos perdemos de nós mesmos. Cronos é também o deus da agricultura, que assim como nós humanos com nossas polaridades entre aspectos favoráveis e desfavoráveis, ele também nos indica que há tempo para plantar e tempo para colher. Ou seja, há tempo para tudo, tempo para refazer o tempo, seja na escola ou na própria vida.

Assim como no mito de Cronos, a escola está abarcando a luta para vencer o tempo estipulado por um sistema, que devora e aprofunda a angústia, levando a todos a viverem impactos e distanciando ainda mais o prazer pelas “ensinagens e aprendizagens” que acontecem com o próprio viver, com as experiências, com a convivência com quem está mais próximo, com todo o planeta que tenta se equilibrar dia após dia em torno de conflitos que impossibilitam a integridade humana.

Que as nossas preocupações sejam reservadas para o agora, sabendo viver o hoje com o que nos é possível realizar, adotando medidas que pensem no aluno, no professor, no pai/mãe/cuidador enquanto pessoa e não alguém que precisa produzir para alimentar os números de um sistema que a todo custo quer devorar e consumir o que ainda há de humanidade.

Clara Maria Miranda de Sousa
(Psicóloga, Pedagoga e Mestra em Formação Docente e Práticas Interdisciplinares)

Marcelo Silva de Souza Ribeiro
(Dr. em Educação e Prof. da Univasf)
Pesquisadores no Laboratório de Estudos e Práticas em Pesquisa-Formação (LEPPF).

sábado, 6 de junho de 2020

“EDUCAÇÃO CRÍTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA” INFODEMIA E FAKE NEWS



Em tempos de pandemia, a educação crítica nos impulsiona a refletir acerca da veracidade e autenticidade das informações que circulam nos ambientes digitais. O excesso e a poluição de informações, chamada de infodemia, compondo o ecossistema virtual da fake news, passa a ser um dos principais desafios a ser encarado nos processos educativos da contemporaneidade.

Este é um panorama realmente novo. Os processos educativos com foco na criticidade nos apontam o caminho, que seria o mais apropriado para a convivência harmônica nos espaços midiáticos, sobretudo quando permeados intensamente pela emoção e polarizações, obliterando a consciência, a responsabilidade e empatia. Diminuir o abismo proporcionado pelas novas tecnologias entre aqueles que sucumbem na infodemia e os que a ultrapassa, é um processo gradual, que muito nos desafia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que vivemos uma infodemia contexto, está relacionada ao exponencial de informações, com todo tipo de qualidade e credibilidade (KALIL & SANTINI, 2020). A infodemia relacionada à desinformação, é rapidamente difundida nas mídias sociais e associadas a determinado assunto, como o próprio vírus de uma pandemia, no qual estamos expostos, dificultando a localização de fontes confiáveis.

Esse movimento da infodemia é uma ameaça eminente à saúde global, dando corpo a todo tipo de visão, com ênfase a desinformação propagada, inclusive, por autoridades governistas. A infodemia chancelada por governos, geralmente de matiz autoritário, amplia o poder de convencimento, contagiando mais fortemente a opinião coletiva. Concomitante a isso, os meios difusores oficiais e as mídias reproduzem seus discursos alavancando e dando maior amplitude, levando informação (im)precisa a todos os lugares. Essa customização da desinformação propagada pela infodemia, incita, via de regra, o ódio, gerando nessa vertente conflitos ideológicos, partidários e identitários. Os efeitos desse contágio são deveras perniciosos, uma vez que ocasiona fissuras partidárias, seguindo a antiga estratégia de guerra do império romano: dividir para conquistar (BICHARA, 2020).

Ainda nesse contexto, como já implicitamente apontado, é importante enfatizar que uma forte vertente da infodemia é a fake news, notícias falsas, que costumam serem definidas como notícias, estórias, boatos, fofocas ou rumores deliberadamente criados para ludibriar ou fornecer informações enganadoras. A fake news visa ainda influenciar as crenças das pessoas e manipulá-las em prol de interesses escusos (SANTAELLA, 2018). A fake news sempre existiu, mas ganhou nova roupagem com a expansão das mídias digitais. Atualmente, conta também com perfis nas redes sociais programados por computadores para fazer tudo o que contas comuns fazem, espalhando informações de maneira automatizada-bots (robôs), tendo inserções também na internet profunda, obscura e escondida - dark web (internet obscura).

Em 30 de abril, a infodemia de fake news, “caixões vazios”, rendeu 1,9 mil compartilhamentos. As imagens continham caixões vazios e abertos. Segundo a Agência Lupa, especializada em fact checking, uma das imagens tinha sido feita há mais de dois anos, e a outra em 2015, sem nenhuma relação com o contexto de pandemia. Com isso, o intuito era descaracterizar os dados oficiais divulgados diariamente pelo Ministério da Saúde, inflando a população ao pânico e relaxamento do isolamento social, que seria, segundo a OMS, a medida mais eficaz para diminuir a circulação do vírus. A notícia foi associada às cidades de Manaus e São Paulo. Casos como este, fortalecem a narrativa perpetrada pelos produtores de fake news e negacionistas, emplacando uma narrativa que reforça a retórica do pensamento de colmeia/bot (robô), de que tantas mortes não são por Covid-19.

Dessa forma, é nítido que a infodemia tem sido fortalecida no domínio público, e se ancora no direito a opinião resguardada pela lei. Essa livre expressão é a válvula de escape em momento de privação social. É relevante pontuar que as tecnologias e sua expansão, transferiram o polo massivo de produção de notícias, das mãos dos jornalistas para cidadãos comuns, em considerável escala. Isso, em virtude do barateamento relativo à produção e a disseminação de conteúdos duvidosos.

Em virtude da relação emocional com a informação e do pouco conhecimento seguida da insipiência nos conhecimentos referentes à checagem, surgem às agências de fact checking, com o objetivo de verificar informações, que, quando falsas, podem comprometer o debate público e mesmo a integridade das pessoas. Com destaque maior, as seguintes: Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, E-Farsas, Fato ou Fake e o Projeto Comprova - atuante em período eleitoral que conta com outras entidades do meio jornalístico. A elas são vinculadas algumas estratégias para a inserção do senso crítico e verificador:
  •   Recebeu uma notícia inédita, urgente ou com pedidos de compartilhamentos? Fique atento!
  •   Observe sempre a data e o contexto em que aquele conteúdo foi publicado.
  •   Duvide de sites estranhos e de cópias de jornais conhecidos.
  •   Cuidado com impostores, por isso, verifique a informação na fonte oficial.
  •   Leia além do título.
  •   Situações de pânico? Desconfie.
  •   Nem todo áudio é verdadeiro, não confie em tudo que você escuta.
  •   Fotos são facilmente adulteradas, não confie em tudo o que você ver.
  •   Na dúvida não compartilhe.
  1. A educação crítica é, nesse cenário, a defesa primeira, pois é na escola que habilidades e competências, como a capacidade crítica, podem ser desenvolvidas, elevando o potencial investigador, de modo a instigar a análise de conteúdos em contextos diversos, levando em conta, inclusive, que a sociedade está se (re)configurando.

    Estimular os estudantes a se direcionarem a fontes confiáveis, propiciando a eles conhecerem quem publica, se é respeitado, o que omite, a quem direciona e, principalmente o quão é subjetivo, no que diz respeito às parcialidades, passa a ser tarefa primordial para formação de cidadãos em mundo da cibercultura (LEVY, 1999).

    Portanto, a infodemia de fake news gera bolhas com percepções perigosas e que podem comprometer a integridade das pessoas, principalmente em tempos de pandemia. Assim, se por um lado as plataformas digitais nos entretêm, por outro, requer um pensamento crítico e ético a ser mediado, dentre outros espaços, desde cedo pelos atores escolares. A escola, nesse sentido, precisa ser ratificada como sendo um espaço privilegiado de formação baseada na educação crítica.
Referências

BICHARA, Marcelo. Sars-cov-2: Infodemia, pós-verdade e guerra híbrida. [Revista Estudos Libertários (REL), UFRJ,VOL.2.No3; ED.ESPECIAL No1] 1o semestre, 2020. Disponível em: <revistas.ufrj.br/index.php/estudoslibertarios/article/view/34123/19090>. Acesso em: 30 maio, 2020.
Disponível em: <www.bbc.com/portuguese/brasil-52584458>
Disponível em: <
www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/familia-abre-caixao-em-velorio-e-cinco-sao-
contaminados-por-covid-19-na-bahia.shtml>
FERRARI, Pollyiana. 
Como sair das bolhas. - 1a reimpr. - São Paulo: EDUC/Fortaleza: Armazém de Cultura, 2019.
KALIL, I. & SANTINI, R.M. Coronavírus, Pandemia, Infodemia e Política. Relatório de pesquisa. Divulgado em 01de abril de 2020. 21p. São Paulo/Rio de Janeiro: FESPSP/UFRJ. Disponível em: <https://www.fespsp.org.br/store/file_source/FESPSP/Documentos/Coronavirus-e-infodemia.pdf>. Acesso em: 30 maio, 2020.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
SANTAELLA, Lúcia. A pós verdade é verdadeira ou falsa? Barueri, SP: Estação das Letras e Cores, 2018.

Por:
Lucinalva de Almeida Silva
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(Professora e Mestranda em Formação Docente e Práticas Interdisciplinares/Educação na UPE)page4image7988224 page4image7985728
Marcelo Silva de Souza Ribeiro
(Dr. em Educação e Prof. da UNIVASF e UPE)
Pesquisadores no Laboratório de Estudos e Práticas em Pesquisa-Formação (LEPPF). Instagram: @leppfsertao

segunda-feira, 25 de maio de 2020

A “RODA VIVA” DA HISTÓRIA EM MEIO A DISSEMINAÇÃO DO ÓDIO

Saudações!

Mais um texto dos nossos rumores reflexivos em meio a disseminação do ódio, agregada a retrocessos e desigualdades sociais.
Ótima leitura e lembrar que a “roda viva” está sempre em movimento!
Nosso abraço

Clara Sousa
Marcelo Ribeiro
Pesquisadores no Laboratório de Estudos e Práticas em Pesquisa-Formação (LEPPF)
Instagram: @leppfsertao



segunda-feira, 11 de maio de 2020

ENEM EM TEMPOS DE PANDEMIA: PARA QUEM?




Ingressar no ensino superior ou em um curso técnico é um sonho de muitos jovens e que demanda elevado empreendimento de energia. Mas em tempos de pandemia, como isso fica? As diferenças já existentes em relação as condições de investimento se ampliam? Em situações de ensino-aprendizagem online, as lacunas que distanciam brilhantes estudantes sem condições materiais dos estudantes relativamente abastados, têm aumentado?
A propaganda do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) deste ano, estampa nos rostos dos jovens atores escolhidos a frase: “Você que lute!”. Isso quer dizer que realizar as provas do ENEM 2020 será puramente uma questão de mérito e não de oportunidades e de garantia de direitos básicos, como rege a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 206: “I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;”.
É notório que o acesso às oportunidades de preparação para o ENEM tem se precarizado para muitos estudantes da rede pública, justamente pela intensificação do abandono do estado em relação a sociedade de um modo geral, provocando maior impacto aos extratos sociais mais vulneráveis, onde estão localizados parte significativa dos estudantes dessa rede.
Muitos alunos só vão adquirir, por exemplo, seu primeiro computador quando ingressam no mercado de trabalho, isso sem falar da dificuldade de acesso a internet. Uma grande parte das famílias brasileiras vive em condições básicas de vida deficitária, então chega a ser algo perverso propor que cada um lute por si.
Como conseguir acompanhar e acessar as aulas online?
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O espanto toma maior dimensão quando redes municipais e estaduais, ecoando a campanha do Ministério da Educação do Sr Weintraub, demandando dos professores, de modo intempestivo e sem as devidas preparações, o planejamento e a execução de aulas. Será que o Brasil conhece mesmo o Brasil? Ou será cinismo?
Mesmo que se diga que as famílias brasileiras já têm acesso praticamente universalizado a internet, poucas conseguem manter uma rede de qualidade suficiente que favoreça assistir vídeo aulas, pesquisas e outras atividades. Há realidades em que o estudante anda quilômetros para chegar à escola, a exemplo da educação no campo onde muitos ainda sequer têm energia elétrica e acesso a água de qualidade em suas residências.
O que se levanta aqui é a necessária explicitação das reais condições básicas de uma boa parte dos estudantes de escola pública para fazer face ao ENEM nesse contexto de pandemia e isolamento social.
É sabido que as injustas diferenças sociais dos estudantes mais pobres elevam seus esforços para ingressar numa universidade ou curso técnico via ENEM. Daí intensificar as injustiças com discursos hipócritas é algo inadmissível porque evidencia- se um retrocesso na sociedade brasileira. Prefeitos, governadores e políticos em geral que apoiarem aulas online nesse contexto e sem as devidas condições para os mais vulneráveis vão ficar marcados na história nacional como páreas da cidadania.
Na propaganda oficial do MEC, há a imagem de jovens, provavelmente de classes sociais mais favorecidas, com espaço reservado para estudos em casa, com acesso a internet de boa qualidade e dispositivos como smartphone e notebooks. Certamente não são jovens que necessitam trabalhar, além de manter os estudos e que, em suas casas, carecem até mesmo de água para tomar banho ou um pão para comer.
Os jovens da propaganda do MEC indicam frequentar escolas com toda sorte de recursos e pertencer a famílias onde os pais possuem alta escolaridade. Tudo incide nas condições de vantagem na hora de concorrer a uma vaga no ENEM.
Felizmente circulam nas mídias sociais outros “vídeos viralizados”, mostrando jovens conscientes do momento atual e que sinalizam que dias piores virão, além de denunciar a perda das garantias de direitos ao acesso à educação de qualidade.
Para quê e para quem o ENEM 2020 favorecerá via propagandas do MEC e ações reproduzidas em redes a educação?
Ano após ano percebe-se que de milhares de jovens conseguem ingressar no ensino superior de universidades públicas não por falta de capacidade, mas sim por falta de condições. Perdemos gênios, jovens inteligentes e com potenciais fantásticos por uma infeliz mazela social que é ratificada por campanhas como a do MEC. Governos municipais e estaduais terão coragem de por em prática se o mínimo de questionamento?
O Brasil e o mundo estão impactados com a situação da pandemia. Isso é fato. A questão é se esse impacto vai ser aprofundado ou não via políticas de tomem direção da exclusão ou da inclusão. A visão e as ações reduzidas a meritocracia (“só depende de você), torna o futuro mais funesto para os que têm menos oportunidades, potencializa a
a pobreza e joga um sem número de jovens as condições marginais de uma sociedade cada vez mais deteriorada.
Clara Maria Miranda de Sousa
(Psicóloga, Pedagoga e Mestra em Formação Docente e Práticas Interdisciplinares)
Marcelo Silva de Souza Ribeiro
(Dr. em Educação e Prof. da Univasf)
Pesquisadores no Laboratório de Estudos e Práticas em Pesquisa-Formação (LEPPF).


Fonte: @desenhosdonando
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