sábado, 23 de abril de 2011

O garoto que não “cantava as horas”



Na rodoviária de Salvador. Indo para Juazeiro.
Saí da livraria. Havia comprado um livro de Osho sobre corpo e mente e Le Monde Diplomatique – Brasil (duas vertentes literárias que, apesar de contraditórias, têm muito a ver comigo). Vou ao Mcdonalds comer um sanduba (estava resistindo cometer esse sacrilégio até que me rendi a persuasão do mundo americanóide do fast-foot (e agora do mundo hiper-globalizado). Comia um cheddar com batatas e bebia uma coquinha quando chegou um garoto (deveria ter uns 12 anos). Educadamente pediu licença e ofereceu um CD para eu comprar. R$ 10,00, de sua própria autoria (quer dizer, dele e de seu irmão). Comunicativo, ele foi logo falando do seu estilo musical e de suas andanças (canta músicas evangélicas). Perguntou que horas eu iria viajar. Respondi que sairia as quatorzes horas. Ele parou e ficou contando nos dedos. Quatorze horas são que horas? São cinco horas? Apesar de muito comunicativo, desenrolado (como se costuma falar), não sabia calcular/ler as horas!  Ele continuou a contar suas histórias (que é do interior de Pernambuco, mas mora em Camaçari-Bahia e que havia passado por coisas semelhantes a Zezé de Camargo e Luciano - do filme). Fiquei a pensar e olhar aquele garoto enquanto contava suas histórias... Que sociedade é essa que despreza talentos? Tanto potencial e quanta falta de oportunidade! Que horas são?! Êta! Tô atrasado!

Rodô de Salvador, abril de 2011.

POR INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS POTENCIALIZADORA DE TALENTOS DOCENTES - POR UMA UNIVASF POTENCIALIZADORA DE TALENTOS



Muitos dizem que professor é um pouco artista. Talvez faça mesmo sentido. Conheço alguns que falam da vontade de tornarem-se músicos, atores, etc. Outra coisa que me faz pensar a respeito dessa afinidade entre o mundo da arte e da docência é a relação entre sala de aula / alunos com o palco / platéia. Entretanto, mesmo que haja pertinência nessa analogia e que não seja generalizada, obviamente, há que se concordar com a necessidade de desenvolver, a medida do possível, uma instituição voltada para realização de todos os professores (tudo isto tem a ver com a necessidade de realização de todo ser humano).

Quando falo em realização estou me referindo não apenas a relação imediata entre o professor e seus alunos na sala de aula, onde o docente pode se sentir realizado ao exercer sua função. Quero também incluir nessa compreensão toda a possibilidade do professor viver suas várias facetas docentes, seja em sala de aula, como professor-pesquisador, seja nos projetos de extensão, seja na parte da gestão, seja como professor formador, seja nas atividades artísticas culturais inerentes a qualquer instituição educacional ou na relação com a comunidade externa.

Quando penso na instituição que atuo, UNIVASF, a primeira imagem que me vem é de uma instituição com boas condições para realização dos seus professores. Trata-se de uma universidade nova, com um corpo docente jovem e relativamente diminuto (o que faz com que todos ou quase todos tenham oportunidades e espaços para crescerem), situada em uma região com grande demanda social. Além disso, é importante lembrar que a UNIVASF, por ser uma universidade federal, está diretamente conectada aos projetos e programas do governo federal, o que faz que tenha uma capacidade de captar recursos, participar de editais federais, etc. Isto se traduz quando se constata que a maioria dos professores está engajada em algum tipo de projeto ou desenvolvendo algumas funções administrativas.
Outra coisa importante a se destacar é o nível de qualificação dos jovens professores (os técnicos da UNIVASF também têm bom nível de qualificação). Sobretudo por serem jovens, muitos recém doutores ou em fase de conclusão, estão motivados, com muita gana e energia para desenvolverem diversos projetos e realizarem-se como docentes (apenas destaco esse aspecto, mas não quero dizer que os professores mais experientes sejam menos motivados).

Todas essas características contribuem para que a UNIVASF tenha condições, tenha base propícia para realização profissional docente. É claro que não existem apenas “flores” e que as “condições de base” não são suficientes. A UNIVASF vive muitos problemas que também impedem a realização profissional e que tem, de alguma forma, contribuído para migração de professores.

A grande intenção deste efêmero ensaio não é enaltecer o lado positivo dessa Universidade e nem negá-lo, mas apenas chamar atenção, a partir do caso UNIVASF, para a necessidade da cultura institucional ser sensível e voltada para realização profissional, em particular dos docentes. Trarei uma situação concreta para exemplificar o que acabo de falar. Um colega meu, professor da primeira leva (primeiro grupo de professores que compôs o corpo docente), expressava sempre a ideia de querer sair da instituição. Era como se ele não se encontrasse, não se sentisse importante e em realização. Porém, a partir do momento que lhe foi oportunizado um espaço onde desdobrou seus interesses, suas habilidades e suas capacidades, pode reverter a sua perspectiva expressando, daí em diante, entusiasmo, motivação e criatividade.

Sempre achei meio piegas esse papo de “talentos nas organizações”, “potencializar capacidades institucionais”, “equipe vencedora”, etc., porque sentia um apelo mercadológico muito forte (visão individualista) e uma falta de crítica política e social. Entretanto, considero pertinente aprender um pouco com toda essa literatura disponível (muitas baseadas em pesquisas bem fundamentadas e sérias). Portanto, pensar em uma instituição educacional que considere e que tenha como norte (também) a realização profissional dos seus docentes é fundamental para potencializar os talentos de cada um. Consequentemente, isso colabora para que toda a instituição ganhe em termos de inventividade, de produção intelectual, melhora na qualidade do ensino e no impacto social e comunitário.

Assim, avalio como importante reconhecer a necessidade da instituição educacional, e no caso particular, a UNIVASF, estar sensível a potencializar seus talentos, mas também saber conhecer os entraves que possam impedi-los. Então quais seriam eles? Deixo, portanto, para um próximo momento a discussão desses entraves.

Salvador, 18 de março de 2011.
(acompanhando minha mãe em uma cirurgia no Hospital Santa Isabel). 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

APRENDIZAGENS DE FINAL DE ANO


Duas grandes aprendizagens me marcaram o final de 2010 e o comecinho de 2011. A primeira é saber “abrir mão” das coisas e a segunda é saber fazer escolhas / tomar decisões. As duas estão relacionadas porque ao fazer escolhas se abre mão de algumas coisas. Estas aprendizagens são difíceis para mim, pois sempre acreditava que seria possível conciliar, mas nem sempre... Há coisas inconciliáveis na vida. Ou você vai para um lado ou escolhe o outro caminho ou então passa a vida toda na bifurcação da estrada. Algumas situações ilustram essa minha vivência de fazer escolhas e tomar decisões. A minha saída da pró-reitoria de ensino e a finalização do doutorado. Abri mão de algumas coisas como vender o carro (para custear a viagem ao Canadá), ausentar-me por um tempo do Brasil e de todos, entre outras. Nada fácil.
Ville du Québec, hiver 2011.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Em busca de uma educação integrada: o equilíbrio da razão e da “desrazão”


Por Marcelo Ribeiro

As discussões sobre os antagonismos entre razão e desrazão (tudo que equivale ao contrário de razão) não é novidade. Estas remontam aos filósofos antigos da Grécia, passando por pensadores da idade moderna até psicólogos e neurocientistas contemporâneos. Não caberá, portanto, neste ensaio uma resenha dessas discussões. Irei sugerir, tão somente, um equilíbrio por vezes necessário em um contexto que tende, em certa medida e para algumas coisas, supervalorizar a dimensão da razão. Por fim, tentarei articular a busca desse equilíbrio no âmbito da educação.

Normalmente ouvimos as seguintes frases: “cuidado, você não pode perder a cabeça”, “não perca a cabeça”, “não haja assim, você não tem cabeça para isso”. Bem, o que pretendo propor é justamente o contrário. “Percam a cabeça”! 
Mas o que significa o apregoado pelo senso comum (“não percam a cabeça)? Significa que há uma tendência a racionalizar as ações. Tem a ver também com certa tradição que remonta tempos imemoráveis da formação cultural da civilização ocidental, e que se baseia em uma descrença em tudo aquilo que não seja racional. Neste sentido, estamos falando das emoções, da intuição, de gestalt, de feeling, da percepção extra-sensorial, dos sonhos, etc.
Entretanto, um mundo que é regido ou pelo menos que tem como tradição valorizar padrões racionais de conduta e que recrimina ou desaconselha tomadas de decisões ou ações fora do padrão da razão, não parece ser tão eficiente quanto pretende. Poderia passar a descrever aqui de maneira indefinida uma série de exemplos mostrando que, por agir baseado em padrões racionais, muitas pessoas vivem de maneira infeliz, frustrada e, o que pode ser paradoxal, contrária a própria vida. “Perder a cabeça”, desse modo, poderia ser uma boa orientação para muita gente. É claro que não estou propondo abdicar da razão. De maneira alguma! Na verdade, em muitas situações, é necessário saber agir levando em consideração a razão. Isto nos ajuda a antecipar algumas ocorrências, a planejar outras, a criar estratégias, a avaliar e ponderar os passos, a classificar e seriar informações, etc. Essa maneira de agir é muito importante para a vida e não se precisa de modo algum abrir mão dela. A questão que se coloca é, muitas vezes, o excesso desse tipo de conduta na vida. Nem sempre, portanto, “perder a cabeça” é uma coisa ruim. As vezes, agir “perdendo a cabeça” pode ser uma boa oportunidade para a ruptura de um estilo de vida, para fazer viver uma loucura e liberar o potencial criativo, dando vazão a algo reprimido e resgatando a vitalidade existencial. Agir “perdendo a cabeça” pode permitir também a simples experiência de maneira solta, leve e lúdica.
Como foi frisado anteriormente, não há porque abrir mão da razão. Acrescentaria também que viver constantemente “perdendo a cabeça” pode se tornar um padrão comportamental prejudicial, justamente porque se deixou de lado a dimensão racional. O “perder a cabeça” que é defendido tem muito mais a ver com a necessidade de equilibrar uma tendência, muitas vezes excessiva, em nossas sociedades no que diz respeito a super-valorização de condutas racionais.  Assim, para algumas pessoas pode ser importante saber e poder “perder a cabeça” para recuperar o equilíbrio de uma vida que estava deveras racional e que a impedia de ser mais vitalizada.
Depois dessa conversa sobre a importância de saber e poder “perder a cabeça” em alguns momentos da vida resta pensar essa questão no âmbito da educação.
Os professores normalmente assumem uma tendência a reforçar as condutas racionais. Em suas classes sempre estão geralmente mais interessados no pensamento dos alunos, em seus argumentos racionais e em suas sistematizações bem encadeadas por uma lógica impecável.
Mas essa postura insistente do professor não poderia também estar colaborando para perda de oportunidade em desenvolver certas habilidades nos alunos? Seria então possível ensinar a alguém “perder a cabeça”? Não, óbvio que não. “Perder a cabeça” seria uma daquelas coisas que tem a ver com o sentir o gosto de algo. Você não ensina uma pessoa o gosto de algo. O máximo que se pode fazer é ajudar a descrever o gosto, é dar algumas dicas. No caso do professor, o que ele pode fazer é valorizar no aluno respostas ou produções que brotem, por exemplo, da intuição. O processo criativo, extremamente necessário não só nas artes, mas também nas engenharias e até na medicina é muito pouco trabalhado pelos professores. Independe da área que se ensine, o professor pode, por exemplo, valorizar em alguns momentos a intuição, as emoções, as gestalts e os feelings dos seus alunos. Assim, por exemplo, para um estudante de engenharia, uma resposta adequada poderia ter como base o uso de recursos criativos, imaginativos e inventivos para a projeção de uma imagem, para prospecção de uma solução mecânica ou elétrica. Para um estudante de medicina um diagnóstico poderia ser elaborado de maneira mais eficiente se ele puder levar em consideração não uma análise mecânica dos sintomas, mas sim uma compreensão do todo que se apresenta.
Uma educação que se baseia ou que pelo menos é aberta para outras tendências que não apenas a racional, abre possibilidades de expressões e produções de respostas mais diversas aos alunos. Estes, por sua vez, podem se sentir mais a vontade em classe porque estariam “mais inteiros”. Isto significa dizer que um tipo de educação nos termos aqui colocados seria menos dicotomizante, permitindo a integração de dimensões e aspectos humanos que foram, historicamente, escorraçados. Tudo isto não significaria a abdicação do rigor acadêmico ou o descaso para com a pertinência da escola. Pensar e fazer uma educação que envolva elementos da razão e da “desrazão” é adotar uma démarche do equilíbrio, uma busca de uma educação integrada.
Praia de Jauá (Camaçari-BA), 04 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O PRESENTE QUE EU DARIA A ELA

 
Por Marcelo Ribeiro

Sempre tive uma ligação com as crianças e elas a mim, pelo menos eu acho. Lembro como fazia sucesso quando, enquanto psicólogo, atendia crianças. Quando saia, na rua mesmo, as crianças facilmente interagiam comigo. Até mesmo acreditava que eu tinha alguma coisa com Cosme e Damião (santos da igreja católica, mas que na Bahia adquirem, via o sincretismo religioso, as representações de crianças para o candomblé – orixás como Erê).
Até hoje estou muito envolvido com esse universo da criança. Não é por menos que trabalho com educação infantil. Para mim, a criança e a infância (coisas que têm suas diferenças, bem certo) vêm a ser fontes de inspiração. Eu diria até que inspiram uma filosofia de vida. Lembra da música de Gonzaguinha quando ele diz que preferia as respostas das crianças? Eu mesmo me sinto, por diversas vezes, uma criança. E para mim, a criança e a infância, transcendem o próprio ser, a própria criança ali na minha frente. Para mim tem a ver com o amor, com a poesia, com um jeito de ser e de viver.
E é via essa inspiração, essa atração que atravessa minha vida que quero render uma adoração a tudo aquilo que, para mim, significa criança, infância. Sentei em um banco da praça e deixei a imaginação me levar ao sabor das brincadeiras dos pequenos.
Uma criança, em meio a muitas que “algazarriavam” no recreio da escola, dirigiu-se a mim e disse: “Professor, eu lhe trouxe esse presentinho”. A mão estava vazia, mas dava tanta ênfase a sua realidade que peguei com cuidado aquele “presente” e cheguei a entrar em seu universo. Então retornei: “Uh! Muito obrigado! Mas eu posso saber o que é?” E esta retrucou: “Professor! Você não sabe!? É a coisa mas importante que existe!” Como fiquei com muita vergonha, agradeci novamente e com todo jeitinho coloquei o presente na minha mesa. Voltei para a casa encucado com tudo aquilo.
Meses depois, o ano estava quase acabando e aquela turma tinha sido deveras especial, sobretudo a pequena que um certo dia havia me dado o presente. Não me contive e mesmo sabendo que poderia falar sem ser muito entendido (ledo engano!), resolvi fazer alguns agradecimentos aos pequeninos pela bela companhia que desfrutei durante o período letivo.
“Minhas adoráveis crianças, eu quero muito agradecer do fundo do meu coração todo esse tempo que tivemos juntos e dizer que vocês são muito sabidos e que cresceram bastante. Estou certo que vão continuar aprendendo um montão de novas coisas”. E depois de abraçar cada uma delas, não me contive e perguntei a menininha que havia me dado o presente: “o que é mesmo a coisa mais importante?”
Foi então que, para minha surpresa, escutei algo muito profundo e que me surpreendeu: “Professor, o mais importante é o presente”.
Aquela simples resposta, e que poderia ter algumas interpretações, havia mexido comigo e de novo a menininha me sacudia. Foi então que fiquei com um monte de coisas zunando a minha cabeça. Havia assumido que o presente que a menininha se referia era o presente do presente, ou seja, a própria vida, em seu fluxo, se apresentando como um presente.
Foi então que matutei qual o presente (nesse sentido) que eu daria para “ela”. Acho que essa seria uma pergunta que diria muita coisa, inclusive para a minha própria vida. “Eu daria... Eu daria...” Ficava a pensar. Bem, eu daria o que poderia dar. Daria o meu máximo e o meu melhor. Daria a mim mesmo como a maior prova de doação. Daria sem querer nada em troca. Daria de coração sem cobrar resposta. Daria o meu alcance em inteireza. Daria a beleza, a pureza. Daria o frescor do dia e a noite da magia. Daria toda minha vida se assim exigida. Daria porque simplesmente daria como gesto que se põe e faz movimento. Daria a alegria de dar e com toda a certeza na presença. Daria o que não se pode comprar porque é lá o mais importante. Daria a riqueza da existência para alegrar e enobrecer a sua. Daria o presente em seu aniversário mesmo que ela não soubesse que estava ganhando algo. Daria com o mesmo amor.  

Salvador, 03 de janeiro de 2011.

domingo, 2 de janeiro de 2011

OS PODERES E SEUS CUIDADOS

Por Marcelo Ribeiro

Muito se fala sobre o poder. Assim, há o poder nas organizações políticas, o poder nos órgãos públicos e privados, o poder nos cargos de chefias, o poder na relação professor – estudante, o poder nas relações humanas em geral... Mas qual é mesmo a questão do poder? Qual o problema do poder para a humanidade? Para mim, o poder não é o problema. O poder é algo inevitável das e nas relações humanas. Constitui a própria relação, no entender, por exemplo, de Foucault. Mas então o que tanto preocupa os humanos em relação ao poder?
Ainda seguindo uma visão pessoal do que tenho experienciado e interpretado sobre o poder, posso dizer que é algo, apesar de constituidor e inevitável, que deve ser visto de maneira plural e com cuidado. Não concebo o poder no singular. Ao mesmo tempo em que há formas variadas de poder, penso que seja necessário ter certa atitude e postura, enfim, ter uma ética em relação ao poder, ou aos tipos de poder.
Para se pensar um pouco melhor sobre atitude e postura em relação ao poder, há a diferença entre a imposição e a influência. Darei dois exemplos dessa diferença. Em um primeiro, seria um tipo de chefe que impõe aos seus colegas de trabalho uma determinada orientação e outro que mostra a importância e pertinência da orientação. Em um segundo exemplo, seria um tipo de professor que lida com os conteúdos sem estabelecer uma relação de vínculo com seus alunos e outro que estabelece um diálogo com os seus estudantes para que os conteúdos possam fazer sentido aos mesmos. São duas atitudes e posturas distintas entre esses chefes e professores. A primeira é seca, determina e não há muito que se questionar. É simplesmente acatar. A segunda traz outras implicações, tais como o diálogo, a racionalidade e a participação na tomada de decisão.
Sou deveras inclinado a defender a segunda postura e atitude como exemplo de cuidado que devemos ter a respeito do poder. Essa defesa assumida tem como base toda uma tradição filosófica e científica, embora não tenha o mesmo respaldo em termos de tradição e história social. Por exemplo, o filósofo Kant acreditava que a verdade (aqui traduzida como uma orientação emitida pelo chefe de um setor, para dar sequência ao exemplo dado) poderia ser desejada. Jean Piaget, prodigioso biólogo que investigou a origem do desenvolvimento do conhecimento humano dizia, em seus estudos sobre a moral, que a noção de certo e errado e as tomadas de decisões são elaboradas em grande medida pela capacidade racional dos sujeitos. Assim, ao exercer a influência para orientar comandos, o chefe de um setor estabelece diálogo com os seus colegas, trabalha a racionalidade e pertinência das ações, aborda tudo isso de maneira participativa justamente para que todos se apropriem das orientações e sejam autônomos e não autômatos nas orientações. É aí que aparece outra coisa importante, que é a questão da autonomia.
O poder e autonomia têm uma relação de desdobramento. A depender do modo como o poder seja exercido ele pode constituir relações geradoras de automonia, ou melhor, de sujeitos autônomos ou, o contrário, autômatos. Ives de La Talle, seguidor de Piaget, argumenta que relações autoritárias (ou mesmo regimes autoritários) podem trazer dificuldades para o desenvolvimento intelectual e que sistemas democráticos, onde há participação, podem ajudar. Isto porque nas relações autoritárias não há espaço para a argumentação, para o questionamento, para a troca, para a participação. A existência de autonomia implica sempre em um tipo específico de poder que constitui as relações, enquanto que o automatismo implica outro tipo de poder constituidor.
Apesar de não ser tão corrente em nossas tradições e história a postura e a atitude que visa influenciar os sujeitos a seguirem certas orientações, há preciosos exemplos. É o caso do presidente da Philips no Brasil, Marcos Bicudo, que não tem mesa própria. Todos usam as mesas e utensílios de escritórios que estiverem disponíveis. Isto revela também uma perspectiva de horizontalidade na empresa sem necessidade de demarcar territórios e impor posições de chefias (na matéria da Folha de São Paulo do dia 31 de outubro de 2010, caderno “mercado – B2, foi abordado o uso racional dos recursos).
É importante não confundir a influência aqui abordada enquanto prática de uma ética com aquela outra, muitas vezes utilizada pelo marketing, que visa criar necessidades de mercado ou induzir comportamentos/pensamentos aos sujeitos. A grande diferença é que a primeira se dá de maneira consciente, construída via a participação. Enquanto que a segunda não. Esta é totalmente induzida através de mensagens subliminares e não adota o princípio do diálogo.
Outra palavra chave aparece para ajudar a distinguir melhor modos diferentes de se lidar com o poder – diálogo. Nas atitudes e posturas mediadas pelo autoritarismo, geradoras de automatismos e que é um tipo de poder constituidor de relações, não há diálogo. O que existem são consignas ou, no máximo, monólogos. O diálogo é inerente a participação e a autonomia. Nas relações constituídas por um tipo de poder que porta a marca do diálogo, o outro é afirmado em sua diferença e privilegiado justamente por isso. A possibilidade, portanto, da parceria acontece porque o outro pode ser outro na relação. Ele não é anulado, ele não é neutralizado, ele não é apagado, ele não é calado. O outro é chamado, é apreciado, é confrontado, é visto como possibilidade de mudança, de ser “afetante” e afetado. A própria etimologia da palavra dia(de)-logos, significa relação de sentidos, sentidos diferentes que se relacionam, que se interagem. Assim, há a ideia de díade, ou seja, de relação e há também a ideia de logos como sentido.
Ao contrário do que é apregoado por alguns, o poder não leva necessariamente a solidão. É claro que as pessoas públicas precisam saber lidar com o que é da sua dimensão pública e da sua dimensão privada. Mas a depender do tipo de poder, o sujeito se encaminha para o isolamento ou para a ligação. O poder que leva ao isolamento é aquele que nega justamente o diálogo, é um poder autoritário por isso. Enquanto que o poder que afirma o outro na relação leva a ligação. Poder nesse sentido é ligação. É um poder que liga, que dialoga.
Poderia até ser pensado o diálogo como a antítese do autoritarismo. Este, por sua essência, é a própria negação do diálogo, sua impossibilidade fundante. Eminente pensador das ciências humanas, sobretudo em relação a psicologia, Erich Fromm, avaliava que o autoritarismo seria uma maneira de exercer o poder e que estaria profundamente associada a um jeito inseguro de ser que busca uma compensação via o excessivo controle externo (ver os livros “Medo à liberdade” e “Análise do homem”).
Nesse sentido, é possível pensar que o poder marcado pela imposição, pelo autoritarismo, negador de diálogo e gerador de sujeitos autômatos pode ser até prático em termos de efeitos rápidos de controle. Afinal, o servo obedece ao seu senhor. Entretanto, este “obedecer” se dá via a submissão, via a ameaça, via o medo e via a punição. Ora, a punição (e também medo – o que não deixa de ser uma forma punidora de estabelecer relações) como controle é uma das formas menos eficientes de modelar comportamentos, já dizia o pai do comportamentalismo, Skinner (um “humanizador” e crítico mordaz aos processos educativos que se baseavam preponderantemente na punição dos escolares como forma de controlar seus comportamentos e induzir à aprendizagem).
A submissão, a ameaça, o medo e a punição, são características de um tipo de poder que pode ser adjetivado como autoritário.  Apesar de um controle sobre os sujeitados, seus efeitos são imprevisíveis e não há aderência dos mesmos no que se referem as suas tarefas. Assim, a revolta desses sujeitados subjaz, a energia reprimida força escapes muitas vezes incontroláveis e o desejo por mudança é inevitável. Quando a ameaça ou o sistema punitivo desaparece, o comportamento que havia também desaparece junto.
O contrário se dá quando o tipo de poder é marcado pela influência, pela participação e pelo diálogo - o poder dialógico. O controle é interno porque há auto-regulação dos sujeitos que está em constante interação e mesmo que o chefe não esteja mais presente, as orientações, ou seja, os projetos são mantidos porque são desejados. É o que acontece também em uma sala de aula. Nesse caso, mesmo que o professor não esteja presente na classe, os estudantes mantêm seus objetivos e interesses centrados no processo de aprendizagem.
A partir daí surge outro aspecto sobre o poder, que é o egoísmo de sua perpetuação ou o amor de sua superação. O poder dialógico, não quer sua perpetuação porque custaria a negação do outro em prol da sua manutenção. O poder dialógico quer justamente a sua superação porque visa a autonomia do outro, visa o empoderamento do outro. Já o poder autoritário é perverso porque uso o seu poder para a manutenção do próprio poder, para subordinação do outro, impedindo o seu processo de empoderamento. É no egoísmo do poder autoritário que reside sua perversidade, pois é lá que se nega o outro em nome de um “eu” agigantado.
Entender, portanto, a pluralidade do poder e a sua necessidade do cuidado, implica em se ter uma relação com poder de um modo menos preconceituoso, mais aberto e também mais prudente. Assim, por tudo isso, concebo importante desenvolver práticas cuidadosas para lidar com o poder. Isto implica em pensar em uma educação que ajude a preparar as pessoas a lidarem com as questões inerentes do poder. Nesse sentido, uma formação, seja ela da educação básica ou mesmo profissional em nível universitário, deve contemplar, transversalmente, ou seja, em todo o seu currículo, elementos da ética de uma maneira não só teórica, mas, sobretudo prática. Mas isto será uma discussão para outro momento. 

Campina Grande, 30 de dezembro de 2010.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Aula sobre amor - ou sobre "realidade e sonho"


Vou levar você para os meus sonhos

Alguns dizem que o amor platônico é sintomático de alguém que, na impotência ou na impossibilidade da realização plena do seu amor, busca, no mundo das ideias, uma compensação. Deixando de lado todo o psicologismo que se encerra neste tipo de leitura, o amor platônico ainda assim é uma vivência, é uma experiência do possível, do que é possível (pelo menos no momento) - não que esteja a defender o amor platônico como modelo de existência. Na verdade, na verdade mesmo, o melhor, pelo menos acredito eu, o melhor é o amor encarnado, realizado em suas máximas. 
Mas quando ele, o amor, é dificultado, é não correspondido, é proibido, é inviabilizado ou mesmo quando é interrompido, o que resta? Resta o sonho, resta o mundo onírico, resta a fantasia, resta o mundo das ideias. Aliás, o sonho é outra coisa em relação ao mundo das ideias. O mundo das ideias, tal como o modelo platônico, é um mundo da razão. O mundo dos sonhos é regido pelo desejo, pelo inconsciente, pela volúpia, pela lassidão, pela libertação total dos instintos. Portanto, não tem nada a ver com aquele mundo das ideias platônico.
De uma maneira diferente, o sonho para alguns é visto como uma realidade que, muitas vezes, se confunde com essa nossa outra realidade. Diz uma história de um sábio oriental que, ao sonhar sendo uma borboleta acordou acreditando que poderia estar sonhando em ser um homem que havia sonhado em ser uma borboleta. Então aonde existiria mesmo a linha divisória entre aquilo que comumente se chama realidade e o sonho?
O sonho, nesse sentido, seria uma realidade. Ou pelo menos outro tipo de realidade. Realidade enquanto vivência, enquanto experiência...
Levá-la, portanto, para o mundo dos sonhos, é o que resta, é o que é possível. Levar o amor, quer dizer, viver o amor na sua dimensão onírica é se entregar a sofreguidão da experiência inevitável de se largar no embalo de tudo que consiste em relação ao amor.
Sim, a experiência. Ainda assim é uma experiência. O amor sofrido, doido, não juntado, não colado, não amancebado, interrompido, vivido por um ente apenas é ainda digno de afirmação. E diria até mais: é privilégio daquele que o vive, é expressão de vida daquele que sente, mesmo que sinta na “sofrência”.
Por estas e outras é que levarei você aos meus sonhos. Neles, carregarei você em cavalos selvagens e nobres. Andarei contigo em campos formosos, aonde o vento soprará teus longos cabelos. De mãos dadas caminharemos pelos prados, nos olharemos apaixonadamente e sentiremos o mundo perfeito porque nossa união quer assim. A vida será uma delícia na medida da nossa entrega e tudo de um será do outro. Os sentidos, tão absurdamente acentuadas, dominarão nossos corpos em insaciáveis reincidências de querer mais, mais uma vez e cada vez mais. Tudo, tudo isso repleto de uma abençoada pureza que transcende a fugacidade de um querer saciar os desejos. É algo a mais, com toda certeza tem algo que ultrapassa o tempo e o espaço. É tão incomensurável e tão, muitas vezes, sem sentido, que piram as explicações que queiram ser lógicas. Mas para que a lógica?
Levarei você para os meus sonhos. Assim, poderei dormir contigo e estarei ao teu lado, livre, liberto. Ao dormir, acordarei em sonho com você. Você será minha, sem problemas, sem medos, sem culpas, sem preocupações. O que resta... Não por minha verdadeira vontade... mas é que me resta e o que posso afirmar.
Nos sonhos você será minha rainha, minha deusa.. eu serei teu homem, teu forte, teu tudo. A posse será desejada as inversas porque adorarei te pertencer e você adorará me pertencer. E as palavras, muitas vezes supérfluas, serão proferidas para ratificar o que já é óbvio e para mimar os ouvidos.
Tantos, tantos sonhos desejados porque neles você estará. Tantos, tantos sonhos sonhados quanto forte e intenso for o amor. E neles poderemos viver o que for possível porque em outra dada realidade foi impossível.  
Vou levar você para os meus sonhos como quem rouba a mulher alheia. Tomarei posse de você e será minha para sempre. Serei teu dono, todo seu, passível, apaixonado, doido por você. E no gosto dos teus beijos deixarei tudo rolar, abrindo minha alma, misturando a você. Apertarei teu corpo, trarei você para mim, sentirei teu calor, alisarei tua pele, brincarei em teus lábios... Finalmente, rolaremos como perdidos e deixaremos tudo acontecer, oscilando entre a brabeza de um duelo e a doçura de duas crianças. Risos fugirão de nossas faces ao mesmo tempo em que o desespero do saciar comporá tudo que há. Corpos molhados, suados, ávidos, duros, tesos, sedentos, famintos, querendo e impossíveis de se deter serão donos soberanos.
Nos sonhos, tudo liberto, não haverá limites para o pare, para o não pode, para o tenho que ir, para o que vão pensar. Tudo estará em paz e todo o sossego necessário já estará lá. A culpa, a dúvida e a insegurança serão banidas eternamente. Sua vida e minha vida não serão jamais duas partes. Embora dois corpos visíveis... o sentido será um só. As trocas, os fluidos, as entranças, o de um e o de outro, tudo estará confluindo e convergido em um apenas. As mãos, as nossas mãos juntas, as pernas, as nossas pernas cruzadas, os braços, os nossos braços nos enlaçando, os rostos, os nossos rostos juntinhos, as bocas, as nossas bocas coladas, os olhos, os nossos olhares fitando um ao outro apaixonados. De tudo um tudo, de um detalhe o máximo, de um simples toque todo o prazer. E a vida vai encantada dançando uma música produzida pelo amor que exala de nós.
Vou levar você para os meus sonhos...esta noite, ao menos quero sonhar com você e lá tudo será. Será a verdade, será a brevidade do que for possível mesmo que na volátil substância onírica. Viveremos nossos destinos e acatarei o que for produzido pela chama. E estarei lá com você até a última gota de luz. Serei testemunha do fim quando este chegar.
Vou levar você para os meus sonhos e serei fiel e íntegro indo aonde for, chegando aonde chegar, mesmo que um dia acorde e não mais consiga te encontrar.
Vou levar você para os meus sonhos.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dia do professor 2010


Hoje o dia insistiu em acordar. As previsões para o tempo indicam céu parcialmente nublado, mas no período da tarde a temperatura tende a se elevar, chegando aos 35°.
No mundo... as belicosas tensões no oriente médio, fruto de confrontos civilizatórios... Lama tóxica que devasta vilas e contamina rios na Europa... Rodopiantes ruídos de guerra contra um questionável terror que é mediado por intolerâncias às diferenças... Emoções transmitidas pelo heroísmo dos mineradores no Chile e seus respectivos resgates...
Em terra brasilis, uma etapa da campanha presidencial reduz-se a discussões moralistas enquanto um projeto de lei corre sorrateiro, pondo em cheque toda uma perspectiva da carreira do magistério superior... Há também empolgações com os avanços de um país que aponta para um futuro melhor... É possível até sentir uma educação sendo ampliada e de qualidade, além de uma sociedade menos desigual em andamento. Nesse dia que insiste em acordar, relembro que é dia do professor... e uma frase me faz chegar: “na educação os desafios são gigantescos e para ontem, enquanto os resultados não acompanham esse tamanho e nem a velocidade desejada”. Paciência e esperança seriam as palavras que deveríamos nos desejar?

Juazeiro/Petrolina, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Finitude e docência



Como gostaríamos de ser lembrados enquanto ainda houver memória? Esta era a pergunta que os gregos antigos se faziam. Para eles, a compreensão da finitude era presente no cotidiano e o que importava não era a imortalidade, mas o impacto de suas ações na vida.
Algumas coisas são basilares a condição humana e marcam “linhas”, como a história coletiva, a cultura, a história do ser e do indivíduo. Estas linhas, foram chamadas “linhas de desenvolvimento” por Vygotsky. Ele identificava a filogênese (história espécie), a macrogênese (cultura), a ontogênese (história do ser) e a microgênese (história particular do indivíduo). Por muitas vezes, estas linhas se entrecruzam e são marcadas por certas “chamadas existenciais”.
As “chamadas existenciais” têm a ver com o que existe de mais básico a condição humana. Uma delas, por exemplo, tem a ver com a finitude da vida. Em toda história humana, em qualquer cultura ou na vida de qualquer indivíduo, houve sempre (e sempre haverá) algum momento que a finitude aparece ou apareceu como uma força que provoca reflexões, posturas, ações e perspectivas diante da existência.
Sendo leviano ao abordar tema de grande complexidade em um simples lampejo delimitado por este pequeno ensaio, diríamos que a questão da finitude é deveras importante em todas as linhas do desenvolvimento. Cremos que não há como escapar, mesmo que haja completa negação sobre o assunto (a negação é uma vã tentativa de fugir) como, por exemplo, a contemporaneidade excessivamente materialista, coisificante, mercantilizada e pragmática. Como diria o filósofo alemão, Martin Hidegger, somos seres para a morte. E nisto não há nada de macabro. Ao contrário, há um filosofar para a vida, para o saber viver, para o modo como estamos vivendo. Tudo isto, indubitavelmente, conduz a outra questão, que é a ética.
Sinteticamente, é possível, pois, dizer que ao assumirmos a questão da finitude como condição natural e inerente a existência, somos forçados a refletir sobre o modo de vida que levamos, sobre os valores que atribuímos as coisas, ao jeito que nos relacionamos, as nossas ações, etc. A ética, neste sentido, recupera o significado grego que quer dizer “morada”. A ética, portanto, é a morada do ser, é a própria possibilidade de ser humano no mundo e com os outros.
É importante, porém, um pequeno esclarecimento. Assumir a finitude não é uma questão de ser ateu ou não, não é uma questão de admitir que um dia irá morrer. A questão em assumir a finitude tem muito mais a ver com o modo como nos apegamos ou não as coisas e com a necessidade de querer controlar ou não a vida e as pessoas. Ao assumir a finitude, a vida passa a ser vivida com mais responsabilidade e com mais respeito.
Temos uma terrível mania de conduzir nossas vidas sem lembrarmos que há um fim. Aceitar o fim representa uma ética propiciadora para uma vida com menos desejo de controle, de opressão, de agressões demasiadamente desnecessárias, de inseguranças que buscam compensações via complexos de inferioridades... Como nos brinda o músico Paulinho Moska, “vamos começar colocando o ponto final, pelo menos já é um sinal de que tudo na vida tem fim.”
Admitimos que é demasiado atrasado ligar agora essa discussão com a questão da docência. Deveríamos ter introduzido alguma problemática sobre esses dois assuntos logo no início, mas o magnetismo das idéias se apoderou e exigiu seus próprios percursos. Porém, forçaremos um pouco a barra só para compor algumas (re)percussões entre a questão da finitude e sua ética com a docência em suas várias dimensões.
O professor centra sua atividade, sobretudo, na relação com os seus estudantes, seja na dimensão do ensino, da pesquisa ou da extensão. A qualidade da relação é o grande canal mediador que irá facilitar o processo ensino-aprendizagem (é claro que existem vários outros aspectos em jogo nesse processo e também há a competência técnica do professor, domínio do assunto, etc.). Sendo a relação um dos principais cernes que qualifica e respalda a atuação profissional do professor, a ética vai estar, queira não, permeando as construções de conhecimentos, as formações profissionais e as subjetivações dos estudantes.
Ao pensarmos na dimensão gestão, o professor universitário, particularmente para o nosso interesse, tem ainda outro agravante. Além de estar centrado na qualidade das relações organizacionais, lida também com a produção da cultura institucional. Uma cultura institucional universitária tem suas características próprias. Assim, uma universidade pública, por exemplo, não pode ser confundida com uma empresa privada, não deve ser conduzida meramente como instrumento político-partidário ou mesmo não presta a ser concebida como uma prisão nas formas como as relações de poder são estabelecidas (grupos que se digladiam e a força bruta através de intimidações que imperam).
Ao assumir a finitude e, consequentemente, a ética daí decorrida, o professor em suas dimensões não vive para se eternizar via o controle excessivo. A compreensão de que “tudo passa”, orienta a prática e a atitude do professor, relativizando a ideia de verdade única e imutável, deixando-o mais complacente com os múltiplos olhares, não caindo na ilusão de que é dono da disciplina que leciona, que descobriu a verdade na pesquisa, que é o mais sabido, que é o proprietário da instituição (pública), que domina e controla as relações das pessoas...
No fundo tudo pode até parecer ser ilusão (e é!), mas esse não é o problema. A nosso ver, o problema é não considerar que há finitude em termos existenciais. Isto pode contribuir para graves equívocos na forma de se viver, levando a incapacitação da vida. Quando ligamos essa discussão da finitude com a questão da docência (principalmente em suas várias dimensões), reconhecemos uma importância capital, sobretudo porque o professor é um profissional da relação.

Juazeiro / Petrolina, setembro de 2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

GESTÃO SER MAIS – UMA QUESTÃO DE PODER (SER)


Um dos grandes legados de Paulo Freire foi ter pensado, agido e vivido a educação como possibilitadora para o SER MAIS do outro e de si mesmo. Esse SER MAIS, explicando de maneira bem resumida, seria a atualização das potencialidades do ser. Também, em outras palavras, pode significar a atualização da pessoa, o tornar-se cada vez mais humano, o desdobrar das possibilidades de ser, o construir-se na relação de abertura para o diferente consigo mesmo e com o mundo, na curiosidade prazerosa de aprender e no constante diálogo, que não presume nenhum tipo de dominação ou de anulação.
Se trouxermos esse legado freiniano para o campo da gestão (sobretudo da gestão educacional) vislumbraremos uma perspectiva da gestão pelo empoderamento[1]. Um tipo de gestão assim significa estar voltado para dispor a ordem e a dinâmica da organização no sentido de afirmar a criatividade, a inventividade, o desenvolvimento, a autonomia e a liderança das pessoas. No que diz respeito a questão do poder em um tipo de “gestão SER MAIS”, esta não estaria voltada para o domínio centralizador, para o abafamento das capacidades criativas e autônomas das pessoas.
A ideia da “gestão SER MAIS” tem tudo a ver com o que, certa feita, Caetano Veloso falou: “Gente foi feita para brilhar”. Assim, nesse tipo de gestão, os dispositivos administrativos estariam voltados para ajudar o “brilhar das pessoas” e quanto mais estas poderem brilhar, mais potente tenderá a ser a própria organização como um todo.
Uma pergunta pode “pular-aparecer” ao se pensar desse jeito: com tanto brilho entre as pessoas não poderia estar promovendo ou correndo o risco delas desenvolverem grandes egos, ciúmes excessivos ou coisas semelhantes, de modo que a crescente constelação (a famosa frase “muita estrela para pouca constelação”) imploda em um imenso buraco negro, que tudo suga e aniquila?
Tal pensamento só faria sentido se o “brilho” fosse estimulado em uma perspectiva de competição e nessa condição o que existiria em termos de relação não seria o empoderamento, mas a negação do outro como condição para o crescimento de si mesmo. No entendimento de Humberto Maturana, as sociedades atuais são mediadas pela hipertrofia da competição em que as pessoas contradizem a própria gênese da condição humana (que se funda a partir da relação amorosa), colocando em risco a viabilidade humana no planeta.
Na “gestão SER MAIS”, o brilhar do outro não ofusca a luz de si mesmo, mas alimenta. Isto se passa porque o poder vivido não é ameaçador e nem gera insegurança. O poder vivido não quer se cristalizar, não quer se perpetuar de maneira estática. O poder está centrado no devir. Então não há o embate para a anulação do outro ou o domínio para perpetuação de si no poder ou a manutenção a “ferro e fogo” de certo ponto de vista. É óbvio que os conflitos, as diferenças, as tensões e os embates existirão e serão partes importantes da “gestão SER MAIS” enquanto gestão que afirma o empoderamento, a criatividade, a autonomia e a superação como condições essenciais ou como características elementares.
Muito provavelmente uma “gestão SER MAIS” seja propícia a haver mais conflitos e tensões. Isto tende a se dar porque a “gestão SER MAIS” possibilita posicionamentos divergentes, o que é alérgico para um tipo de gestão do tipo opressora. Esta, pode buscar homogeneizar a organização e a pasteurizar as relações, sobrando muito pouco para os diferentes posicionamentos ou alteridades. Entretanto, na “gestão SER MAIS” o que prepondera é uma ética da alteridade. E mesmo no conflito de ideias e posições, o importante é a afirmação do outro enquanto diferente.
Uma gestão do tipo opressora pressupõe a arrogância de que é a melhor e, portanto, merece se perpetuar. Geralmente tem horror às possibilidades, às novidades. Aplaca ferozmente as lideranças insurgentes (ou potenciais) nas organizações, seja anulando mesmo ou cooptando-as para domesticá-las, adocicá-las. Há nesse sentido uma nítida diferença entre a gestão do tipo opressora, que se alinha com a estagnação e a “gestão SER MAIS”, que se baseia com a ideia de possibilidade.
Para falar sobre isso de outra forma, trazemos à baila a posição de Platão, que dizia que após a efetivação da república todas as possibilidades (novidades) devem desaparecer para não atrapalhar o equilíbrio. Em outro ângulo, o filósofo Heidegger aborda a possibilidade como algo mais importante do que a realidade (no sentido daquilo que já está pronto, que já se atualizou...).
O sentido de ser superado e de superar perpassa outro ponto da ética da “gestão SER MAIS”.
Mesmo correndo o risco da estranheza em aproximar essas ideias com aquilo que interpretamos de Trotsky, não poderíamos deixar de comentar aquilo que ele chamava de “revolução permanente”. Para Trotsky, a revolução só lograria êxito se ela não se satisfizesse com alguns avanços. A revolução teria de se expandir horizontalmente (para si ou para os outros) e verticalmente (em si mesmo e para si mesmo). A ideia de superação está contida aí, mesmo que defina a casos bem específicos.
A gestão SER MAIS estaria relacionada com o devir criativo, com a vontade do gestor e ou da gestão ser auto-superada. Para isto, estaria voltada para cultivar sempre o brilho dos outros. E nesse processo de facilitar o desenvolvimento do outro, o próprio desenvolvimento de si mesmo e da organização se dariam via a retroalimentação ou por sinergia.
Para finalizar, queremos apenas dizer que, no fundo, falamos aqui de poder. A questão não é abordar ou não, encarar ou não o poder. Isto não seria possível, até porque, como muitos já colocaram (F. Bacon, M. Foucault...) tudo é poder, toda relação é poder... A grande questão que devemos nos colocar é que tipo de poder queremos, é que tipo de poder fazemos, é que tipo de poder medeia a gestão, sobretudo a gestão educacional.

Juazeiro / Petrolina, setembro de 2010.



[1] Neologismo oriundo da palavra inglesa empowerment, que significa possibilitar ao outro ganhar/assumir/tornar o seu próprio poder pessoal