sábado, 7 de abril de 2012

Universidade Educadora





Universidade Educadora
A importância de ser referência para sociedade



Marcelo Ribeiro






Este pequeno texto pretende suscitar algumas discussões acerca do papel educador das universidades nas sociedades, sobretudo brasileira – que é marcada por grandes desafios sociais, econômicos, ambientais, culturais e científicos. Embora pareça redundante, o papel educador da universidade comporta variações e nem sempre a instituição universitária expressa consciência dessa importância.

Antes, contudo, é importante esclarecer que não há pretensões de colocar a universidade como a única instituição capaz de exercer um papel educativo na sociedade. Em termos institucionais, muitas outras organizações têm condições, potenciais e já exercem tal papel.

Por outro lado, não dá para negar que a universidade é uma instituição singular no que refere as suas missões, visões e mesmo constituição histórica nas sociedades modernas. Seu compromisso em formar profissionais, produzir conhecimentos, desenvolver tecnologias, disseminar e promover cultura, além de contribuir com o desenvolvimento socioeconômico, tem suas variações a depender da instituição (se for uma universidade federal, estadual, se for uma universidade localizada em São Paulo, se está na capital ou no interior etc.) e do momento político econômico em que está inserida.

Todos esses compromissos podem e têm, mais ou menos, um papel educador na sociedade. Alguns de maneiras mais óbvias, outros indiretamente. Assim, formar profissionais compreende um papel educador no sentido que novas gerações de profissionais são postos no mundo do trabalho com visões, posturas e conhecimentos atualizados e, a depender, renovados.

Um médico formado hoje pode até manter relações com seus pacientes a partir de uma visão tradicional e já bastante criticada, mas certamente terá tido mais oportunidades em acessar em sua formação as novas técnicas, aos conhecimentos de ponta etc. O papel educador neste caso se caracteriza pela própria formação de novos profissionais.

Os conhecimentos produzidos pela universidade, as tecnologias desenvolvidas e patenteadas, podem, muitas vezes, transformar as realidades locais ou mesmo ajudar no desenvolvimento da sociedade como um todo. Apesar de instituições de peso como  a Fiocruz , a Petrobrás, a Embraer e a Embrapa, são as universidades brasileiras (federais) que assumem ainda o maior peso no desenvolvimento de pesquisas e na produção de conhecimentos.

Sem dúvidas o papel educador vai estar presente em todas as ações da universidade. Entretanto, é importante lembrar para um sentido que está contido também na própria etimologia "universidade", que tem a ver com “universo”, com pluralidade, com diversidade. A universidade como invenção social da modernidade (embora forjada já na idade média) foi traduzida como um espaço que garantisse a existência de espíritos livres, mentes pensantes, ideais novos e diferentes, mas também que pudesse manter e guardar o patrimônio intelectual de uma sociedade, de um povo.

Sem adentrar na complexa e interessante discussão sobre a história e os diversos desdobramentos da universidade, sobretudo no mundo ocidental, é importante notar que essa instituição, universidade, tem como fundamento basilar a diversidade e a pluralidade de ideias. A universidade é o lugar dos embates, dos confrontos e das divergências de ideias. Esta característica é tão essencial e muitas vezes até "natural" (no sentido de acontecer como se fosse algo natural) que, sem ela, ficaria difícil imaginar um ambiente universitário. Como poderia ser uma universidade onde fosse proibido pensar, questionar, duvidar? Ou melhor, como poderia ser uma universidade onde houvesse o pensamento único? Certamente não seria mais universidade, seria qualquer outra coisa.

A universidade, enquanto instituição da diversidade, pluralidade e campo de confronto de ideias, passa alguma mensagem para a sociedade. Talvez, a depender de como lide com essa mensagem, ou como estabeleça as dinâmicas do confronto de ideias, possa dizer algo interessante à sociedade.

Reside aí, portanto, um dos seus outros possíveis papéis educadores. A universidade pode dizer ou mostrar a sociedade (que a constitui e é constituída por ela) que é possível conviver com e na diferença e também que os embates e confrontos de ideias podem ser interessantes, impulsionando a criatividade e a construção de novas possibilidades da realidade, inventando assim cidadanias mais democráticas.

Certamente há um tom utópico nessa colocação à medida que é sabido que essa convivência das diferenças não é tão amistosa assim. Há inúmeros casos de atritos mortais envolvendo pesquisadores, professores, estudantes, enfim, a comunidade acadêmica. Porém, o que vale ressaltar aqui é que a universidade, muito dificilmente, não tem como escapar a essa condição de diversidade, de pluralidade e de profícuas tensões de ideias.

Entretanto, nem sempre as universidades, em termos de sua comunidade acadêmica, parecem ter consciência desse papel educador, em particular, de ser instigadora de uma sociedade que afirme a diversidade e a pluralidade.

Uma gestão institucional que tenha consciência desse papel educador pode criar dispositivos e dinâmicas que valorizem e estimulem a produção da diversidade, que reforce a produção de diferenças, de múltiplos saberes, de perspectivas e forças variadas. Assim, a universidade poderá estar dizendo algo para a sociedade como um todo e servir de referência para possibilidades de socialidades, fomentando tipos de cidadanias mais democráticas.

Uma universidade educadora, embora aparentemente redundante, como apontando no início deste texto, tem na sua gestão um dos pontos mais importantes para deflagrar o desdobramento de suas potencialidades. É importante, por exemplo, que a gestão da universidade enxergue suas missões e visões associadas ao papel educativo, ou seja, de que a universidade possa ser referência de possibilidades para a sociedade se reinventar.

Nesse sentido, é possível imaginar uma universidade que seja inovadora, que esteja vanguarda em suas ações, que antecipe problemas e soluções, que demonstre práticas de convivências, que crie modelos de gestão mais humanos e eficazes, enfim, que produza toda uma série de invenções e práticas para que a sociedade possa se inspirar e se recriar.

Nesses termos, por exemplo, é que a universidade se torna educadora quando assume de maneira intencional gestões participativas, quando cria espaços acadêmicos onde a livre expressão de ideias é afirmada, quando experimenta outros modos de convivências administrativas, quando consegue demostrar que sonhar em um mundo melhor é desejável e, mais importante, quando passa a ser uma das referências no sentido de mostrar que é possível transformar a própria sociedade.

domingo, 18 de março de 2012


PATRIMONIALISMO, IDENTIDADE E A TENSÃO CONSTITUIDORA DA UNIVASF –
O CASO PREFEITO DE PETROLINA




Este pequeno texto busca uma reflexão sobre o episódio recentemente ocorrido quando o prefeito de Petrolina publica uma notícia no Blog do Carlos Brito (http://www.carlosbritto.com/196718/). Não é nosso propósito contestar a frágil posição do chefe de admnistração municipal em pedir ao MEC intervenção da UNIVASF no sentido de parar com o ENEM, até porque isto já foi feito de maneira competente pelo colega Ildemar. O intuito é puxar uma reflexão para a nossa constituição identitária quanto instituição.

Como é de conhecimento de todos, a patente do nascimento da UNIVASF é reivindicada por inúmeros candidatos a sua paternidade. Desde a história de uma universidade federal de Petrolina até a sugestão de se criar uma universidade do Vale, contemplando supostos interesses políticos da Bahia e de Pernambuco, a luta e a tensão para a apropriação e interferências na UNIVASF não é algo recente.

Suspeitamos que essa tendência de apropriação da UNIVASF por parte dos políticos locais não seja mero oportunismo eleitoral ou capitalização de forças. Aventamos a possibilidade de que essa tendência (já vastamente observada em vários momentos) tenha relação com um modo cultural, particularmente relacionado aquilo entendido por patrimonialismo.

Sem querer aprofundar a discussão sobre o patrimonialismo, compreendemos que essa inclinação de tornar privado aquilo que é público, ou melhor, esse comportamento de apropriação individual do que é coletivo, perpassa muitas das práticas de boa parte dos antigos e atuais políticos de nossa região.

Como dizem os estudiosos a respeito da identidade, esta antecede e precede a existência do ser. Isto significa dizer que, antes da Univasf existir, propriamente dita, já havia toda uma disputa, discussão e tensão sobre sua constituição. Certamente a identidade (neste caso, a identidade institucional) perpassa, ultrapassa e transcende as circunscrições físicas, administrativas e legais da UNIVASF.

Esse modus operandi dos políticos se relacionarem com a UNIVASF, mais especificamente falando, essas tentativas de apropriação, de tratar a UNIVASF como se fosse algo que eles fossem donos, constitui, para « o bem e para mal », a própria identidade da instituição. O gesto do prefeito é exemplar nesse sentido a medida que anuncia um contato com o MEC demandando interferência, como se fosse auto suficiente para imprimir seus interesses, desrespeitando completamente a autonomia da Universidade.

Lembramos que o gestor anterior da UNIVASF, por vezes, expressava suas preocupações com a interferência dos políticos locais. Embora não se tomasse, à época, posições muito claras nas relações políticas interinstitucionais, algumas incursões e intromissões de prefeitos, deputados e políticos aposentados foram explícitas e de ordem pública.

Como instituição federal, sobretudo como Universidade, entendemos como fundamental que a UNIVASF mantenha sua autonomia e interdependência. Até mesmo por uma questão de manutenção ou busca da qualidade, não seria possível admitir uma apropriação do tipo patrimonialista.

Entretanto, não dá para fugir a realidade de que a UNIVASF está inserida em tipo de cultura que traz a marca do patrimonialismo, principalmente no meio político. Em outras palavras, nos parece que, queiramos ou não, a tensão entre a tendência de querer se apropriar da UNIVASF e sua luta por se manter autônoma é constituidora da própria identidade.

Talvez existam vantagens, apesar de um aparente desconforto se pensarmos que teremos muitas lutas ainda a enfrentar. Não sabemos se foi possível observar, mas muitos colegas servidores (a favor ou não da atual gestão da UNIVASF) se posicionaram, no e-mail institucional e nas redes sociais, de maneira forte contra o pronunciamento do prefeito.

Essa tensão que permeia o passado, o presente e, quiçá, o futuro da UNIVASF, no que diz respeito as forças de apropriação patrimonialista e a necessidade de manter a autonomia, constitui, queiramos ou não, uma das dimensões da própria identidade da instituição.

O caso prefeito de Petrolina, além dos seus supostos aspectos demagógicos e eleitoreiros, revela, no nosso entendimento, algo mais. Este caso parece demonstrar um dos contextos de inserção e constituição da UNIVASF. Sejamos atentos e sábios.

Abraços,
Marcelo.

Jua-Petro, março/2012.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Gota d'água


Era uma sala de aula,
Uma sala de aula bem típica. As carteiras estavam enfileiradas, os alunos devidamente posicionados e havia uma atmosfera de concentração. O professor parecia estar aplicando «aquela» prova geral. Ele circulava pela sala como a inspecionar a atividade dos discentes. Seu semblante parecia expressar descontentamento. Talvez porque não estivesse sendo correspondido. Os alunos mal preenchiam as questões. Uns três ou quatro passaram a fazer ruídos; vozes quase que inaudíveis. Apenas era possível notar um leve tom de burburinho ao fundo da sala. Isto bastou para que o professor fosse tomado por uma cólera. Saiu do descontentamento para uma explosão de descontrole. Começou a gritar em classe e a maldizer seus alunos. Estava realmente muito enfurecido. Provavelmente aquela distração do pequeno grupo ao fundo tivesse sido a gota d’água. Não suportou mais e sabe lá Deus o que já havia passado. Ou então, só estivesse mesmo saturado e ansioso para novas perspectivas em sua vida profissional. Em vão saber ao certo. O fato é que o comportamento do professor revelava uma grande desaprovação. Sua reação mostrava um confrontar com algo que se passava e ao mesmo tempo uma intenção de  mudar seus alunos. Talvez mudar a atitude passiva, talvez mudar a falta de concentração e responsabilidade dos alunos. Não sei se houve resultado, se o professor conseguiu chamar atenção dos alunos e de fato lograr êxito quanto educador. Não sei porque não pude continuar com o sonho. Acordei com a nitidez das cenas e a sensação das experiências.
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Um sonho sempre é múltiplo e disponibiliza várias perspectivas. Irei me centrar na possibilidade de discutir algumas posturas docentes, mas também buscando uma compreensão, tentando não cair no julgamento puro e simples. Apesar da situação ser de dimensão onírica, tomarei como exemplar de inúmeras realidades, acreditando, portanto, na riqueza de reflexões plausíveis.
Penso que é importante partir da premissa constitucional de que todos são inocentes até que se prove o contrário. O fato de um professor assumir uma postura tradicional não significa, de ante mão, que esteja imbuído de um sentido negativo. Sua intenção pode ser a melhor, desejando que todos os seus alunos aprendam. Certamente o problema reside no método, na maneira como conduz, nas escolhas de se relacionar e entender os processos pedagógicos. 
Uma possível explicação ganha eco naquilo que Bourdieu e Passeron chamavam de habitus. Essa incorporação inconsciente que guia o comportamento do sujeito, reproduzindo os padrões e garantindo que a cultura se mantenha entre os indivíduos após sucessivas renovações de gerações. Já ouvi muitas vezes, nesse sentido, professores falarem que ensinam de tal maneira porque seus professores faziam daquele mesmo jeito com eles. E assim a humanidade caminha, como diz uma das canções de Lulu Santos.
A reação intempestiva e até brutal do professor não pode ter perdão à medida que fere e viola a experiência significativa de aprender dos alunos. Por outro lado, não se pode crucificar aquele sujeito, que antes de ser professor é uma pessoa, como diria Antonio Nóvoa. Essa pessoa é marcada por histórias, pertence a um tempo e significa sua existência de modo singular.
Quero trazer um outro viés dessa história. É verdade que, se todos apenas reproduzissem a cultura e os padrões sociais não existiriam mudanças. Se assim fosse, a sociedade não «avançava». O importante disso tudo é atentar, inclusive, para uma posição educadora daquele que se dispõe a educar. E aí cai na velha questão de quem educará aqueles que educam? 
Penso que o paroxismo da questão não reside em quem, mas no como. Isto significaria dizer que o importante, pelo menos a mim assim o parece, seria atentar para um certo «olhar» sobre aquele que educa. Seria possível, inclusive, instituir uma formação permanente onde o cuidado com o outro e até mesmo consigo mesmo fossem prerrogativas fundamentais para o desenvolvimento do docente.
Em síntese, poderia dizer que, antes de se julgar o professor é primordial compreender suas razões, mas sem nos conformar com as possíveis respostas. É importante avançar e cuidar de nós e do outro, buscando compreender suas fontes e razões. E ainda, provocar outras possibilidades de enxergar as situações vividas e tentar agir de maneiras diferentes.
Eu queria voltar ao sonho e puder conversar com aquele professor e seus alunos. Queria dizer a ele que, se eu estivesse correto em minhas percepções, entendia a sua cólera (mesmo que não concordasse). Diria também que eu sabia que ele desejava que os alunos estudassem e que estivessem comprometidos com as atividades. Falaria ainda que sabia que estava cansado e que aquilo havia sido a gota d’água. Eu diria que sentia muito. Perguntaria aos alunos como se sentiam naquele tipo de aula, provavelmente chata, enfadonha e amedrondadora; justamente porque o professor se baseava em métodos intimidadores (na vã ilusão pedagógica de garantir a aprendizagem). Por fim, gostaria de propor novas possibilidade de experimentar a vida em sala de aula. Talvez em outro sonho, quem sabe? 
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BOURDIEU, P.; PASSERON, J-C, La reprodution. Élements pour une théorie du système d’enseignament. Paris, Minuit, 1971.
NOVOA, A. (org.). Os professores e sua formação. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Entre uma gestão autoritária e participativa: implicações para o mundo universitário


Nem sempre é tão óbvio para quem acaba de chegar em instituição (em particular para nossa discussão, uma instituição pública de ensino - universidade) reparar os seus contornos e formas de gestão. O próprio enebriamento de toda novidade vivida na recém chegada a instituição obnubila a percepção para esse aspecto (exceto para aqueles que já são afeiçoados, via uma formação específica, ao tema).

Para os servidores mais velhos, ou seja, para os professores e técnicos que já têm alguma experiência, algum tempo na instituição a coisa muda um pouco de figura. A grosso modo é possível estabelecer a seguinte classificação: existem aqueles que desde o começo estavam sensíveis as formas de gestão; há os que se envolvem com os seus próprios projetos e rotinas, apesar de se darem conta das questões relativas a gestão; e há os que não querem nem saber. Não há nenhum julgamento moral em relação as posturas dos servidores, apenas intencionamos chamar atenção para algumas implicações dos modelos de gestão nas vidas profissionais dessas próprias pessoas.

Para efeito de contraste, iremos simplesmente esboçar dois grandes modelos de gestão aqui denominados de “gestão autoritária” e “gestão participativa”.

Mesmo que não estejamos atentos, mesmo que achemos que não “nascemos” para essa coisa de gestão, temos implicações e somos implicados. Poderíamos dizer muito mais. Somos, na verdade, implicados diretamente nos efeitos a depender do modelo de gestão universitária. Tentando pensar essas implicações iremos, sinteticamente apresentar algumas características a respeito do tipo autoritário e do tipo participativo de gestão.

Tipo autoritário
Tipo participativo
Tomada de decisão restrita a poucos indivíduos
Tomada de decisão estendida
Relações mediadas e controladas pelo medo
Relações abertas às críticas e mediados pelo confronto de ideias
Baixo nível de confiança e mal estar no ambiente organizacional
Alto nível de confiança e bem estar no ambiente organizacional
Não propicia a autonomia
A autonomia é vivenciada de maneira consistente porque há uma aposta na competência individual e dos grupos
Baixa criatividade organizacional
Alta capacidade criativa
Nível elevado de estresse ocupacional – ambiente propiciador para adoecimentos
Satisfação e bem estar vividos no ambiente organizacional porque há vinculação com o sentimento de realização profissional.
Tendência a desmotivar os servidores
Ambiente motivador
Tendência dos servidores desenvolverem sentimentos de discórdias e revoltas.
Tendência a desenvolver laços de união, trabalho em equipe.
Capacidade reduzida da instituição forjar novas lideranças
Alta capacidade da instituição formar novas lideranças e centrar-se na qualidade via a competência.

terça-feira, 28 de junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A GESTÃO AUTORITÁRIA E SEUS ENTRAVES PARA UMA UNIVERSIDADE CRIATIVA


Em outro momento falamos sobre uma universidade mais vigorosa, efetivamente criativa, empreendedora, partilhada e mais potente. A proposta neste breve ensaio é trabalhar a questão dos entraves e dos impedimentos para uma gestão universitária mais criativa.
Parece existir um mito de que a eficiência e a potência empreendedora de uma organização se encontra na sua capacidade de ser célere, de ser centralizada e ser objetiva. Em verdade, estes aspectos por si não estariam contrariando a ideia mesmo de empreender. Entretanto, se estes aspectos estiverem associados ao poder autoritário, ou melhor, a um tipo de gestão autoritária, eis aí um grande perigo para a própria saúde organizacional. A seguir, veremos alguns desdobramentos que intencionam discussões primeiras sobre o tema.
O primeiro ponto que queremos nos referir é a própria noção de gestão. Não pretendemos problematizar seu conceito e nos reservamos a modesta condição de lançar simplesmente um olhar.
A gestão assume aqui uma perspectiva de gestão partilhada. Isto significa dizer que não concordamos com a ideia de uma gestão ultra especialista, formada por pessoas tecnicamente capazes e que a elas foram delegados poderes para gestar de uma maneira quase que isolada da comunidade acadêmica. Entendemos que a ideia de gestão defendida passa pelo partilhamento, onde todo o coletivo é  instigado a participar, a acompanhar os processos e dinâmicas. É claro que existem competências específicas e técnicas particulares que dizem respeito as funções precisas onde existem pessoas previamente designadas a responder as respectivas demandas.  Assim, por exemplo, o setor de transporte tem sua própria competência demandada e que as pessoas que trabalham diretamente neste setor têm conhecimentos próprios e não caberia a outros setores o envolvimento direto nessas atividades. Entretanto, caberia compreender que a gestão em seu sentido largo passa pela implicação, envolvimento, participação e consideração de todos os que se sentem partícipes da comunidade maior. Estamos nos referindo, portanto, a ideia de gestão participativa, que passa pela questão do envolvimento e da transparência. Mas por que defender uma gestão do tipo participativa? Que ganhos ela traz? O que ela tem a ver com a ideia de universidade criativa?
Um dos grandes entraves para criatividade é o centralismo ou a gestão autoritária. Esta lança meios e forja mecanismos ou institui, via o poder autoritário, dispositivos que minam o nascimento de renovações, de novos líderes, de iniciativas independentes, de manifestações e críticas. Algumas vezes não seriam nem ameaças ao poder autoritário da gestão, mas simplesmente tudo passaria a ser visto como ameaçador e por isso suceptível de ser eliminado. Sabemos que a criatividade tem como um dos seus princípios a diversidade, a tensão, o conflito e a participação. A criatividade também viceja melhor em terrenos menos ameaçadores, onde os sujeitos se sintam mais confortáveis e seguros. Uma gestão autoritária e centralizadora vai buscar justamente o contrário, ou seja, vai tentar eliminar a diversidade (de pensamento, de posições), não vai lidar com as críticas de maneira positiva e vai gerar constatemente um clima de ameaça e coerção, o que impedirá o desenvolvimento de potenciais ciriativos.
Em recente matéria publicada no “Le monde Diplomatique Brasil?  (ano 4 / número 45), intitulada “Por mais estado e menos poder”, abordando a revolta dos povos árabes, Samir Aita analisa como o poder autoritário faz sucumbir o poder do estado (onde reside a possibilidade de um poder mais participativo) entre os povos árabes e anuncia que o desmantelamento do autoritarismo liberta a energia para empreender. É claro que uma gestão universitária, um mundo universitário não é uma réplica de uma sociedade como um todo, mas algumas analogias são possíveis e desejáveis. É nesse sentido que trouxemos a referida matéria para enriquecer a compreensão que tentamos construir a respeito da gestão do tipo autoritária que tampona a energia criativa e empreendedora da universidade.
Resta-nos ainda, mesmo que na brevidade de um próximo ensaio, descrever e analisar, de modo contrastante, as caracetrísticas entre uma gestão autoritária e outra do tipo participativo. Além disso, parece ser importante entender algumas das implicações para o mundo universitário. Uma tarefa que se coloca desafiante para uma próxima postagem.

Jua / Petro, maio de 2011.

sábado, 23 de abril de 2011

O garoto que não “cantava as horas”



Na rodoviária de Salvador. Indo para Juazeiro.
Saí da livraria. Havia comprado um livro de Osho sobre corpo e mente e Le Monde Diplomatique – Brasil (duas vertentes literárias que, apesar de contraditórias, têm muito a ver comigo). Vou ao Mcdonalds comer um sanduba (estava resistindo cometer esse sacrilégio até que me rendi a persuasão do mundo americanóide do fast-foot (e agora do mundo hiper-globalizado). Comia um cheddar com batatas e bebia uma coquinha quando chegou um garoto (deveria ter uns 12 anos). Educadamente pediu licença e ofereceu um CD para eu comprar. R$ 10,00, de sua própria autoria (quer dizer, dele e de seu irmão). Comunicativo, ele foi logo falando do seu estilo musical e de suas andanças (canta músicas evangélicas). Perguntou que horas eu iria viajar. Respondi que sairia as quatorzes horas. Ele parou e ficou contando nos dedos. Quatorze horas são que horas? São cinco horas? Apesar de muito comunicativo, desenrolado (como se costuma falar), não sabia calcular/ler as horas!  Ele continuou a contar suas histórias (que é do interior de Pernambuco, mas mora em Camaçari-Bahia e que havia passado por coisas semelhantes a Zezé de Camargo e Luciano - do filme). Fiquei a pensar e olhar aquele garoto enquanto contava suas histórias... Que sociedade é essa que despreza talentos? Tanto potencial e quanta falta de oportunidade! Que horas são?! Êta! Tô atrasado!

Rodô de Salvador, abril de 2011.

POR INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS POTENCIALIZADORA DE TALENTOS DOCENTES - POR UMA UNIVASF POTENCIALIZADORA DE TALENTOS



Muitos dizem que professor é um pouco artista. Talvez faça mesmo sentido. Conheço alguns que falam da vontade de tornarem-se músicos, atores, etc. Outra coisa que me faz pensar a respeito dessa afinidade entre o mundo da arte e da docência é a relação entre sala de aula / alunos com o palco / platéia. Entretanto, mesmo que haja pertinência nessa analogia e que não seja generalizada, obviamente, há que se concordar com a necessidade de desenvolver, a medida do possível, uma instituição voltada para realização de todos os professores (tudo isto tem a ver com a necessidade de realização de todo ser humano).

Quando falo em realização estou me referindo não apenas a relação imediata entre o professor e seus alunos na sala de aula, onde o docente pode se sentir realizado ao exercer sua função. Quero também incluir nessa compreensão toda a possibilidade do professor viver suas várias facetas docentes, seja em sala de aula, como professor-pesquisador, seja nos projetos de extensão, seja na parte da gestão, seja como professor formador, seja nas atividades artísticas culturais inerentes a qualquer instituição educacional ou na relação com a comunidade externa.

Quando penso na instituição que atuo, UNIVASF, a primeira imagem que me vem é de uma instituição com boas condições para realização dos seus professores. Trata-se de uma universidade nova, com um corpo docente jovem e relativamente diminuto (o que faz com que todos ou quase todos tenham oportunidades e espaços para crescerem), situada em uma região com grande demanda social. Além disso, é importante lembrar que a UNIVASF, por ser uma universidade federal, está diretamente conectada aos projetos e programas do governo federal, o que faz que tenha uma capacidade de captar recursos, participar de editais federais, etc. Isto se traduz quando se constata que a maioria dos professores está engajada em algum tipo de projeto ou desenvolvendo algumas funções administrativas.
Outra coisa importante a se destacar é o nível de qualificação dos jovens professores (os técnicos da UNIVASF também têm bom nível de qualificação). Sobretudo por serem jovens, muitos recém doutores ou em fase de conclusão, estão motivados, com muita gana e energia para desenvolverem diversos projetos e realizarem-se como docentes (apenas destaco esse aspecto, mas não quero dizer que os professores mais experientes sejam menos motivados).

Todas essas características contribuem para que a UNIVASF tenha condições, tenha base propícia para realização profissional docente. É claro que não existem apenas “flores” e que as “condições de base” não são suficientes. A UNIVASF vive muitos problemas que também impedem a realização profissional e que tem, de alguma forma, contribuído para migração de professores.

A grande intenção deste efêmero ensaio não é enaltecer o lado positivo dessa Universidade e nem negá-lo, mas apenas chamar atenção, a partir do caso UNIVASF, para a necessidade da cultura institucional ser sensível e voltada para realização profissional, em particular dos docentes. Trarei uma situação concreta para exemplificar o que acabo de falar. Um colega meu, professor da primeira leva (primeiro grupo de professores que compôs o corpo docente), expressava sempre a ideia de querer sair da instituição. Era como se ele não se encontrasse, não se sentisse importante e em realização. Porém, a partir do momento que lhe foi oportunizado um espaço onde desdobrou seus interesses, suas habilidades e suas capacidades, pode reverter a sua perspectiva expressando, daí em diante, entusiasmo, motivação e criatividade.

Sempre achei meio piegas esse papo de “talentos nas organizações”, “potencializar capacidades institucionais”, “equipe vencedora”, etc., porque sentia um apelo mercadológico muito forte (visão individualista) e uma falta de crítica política e social. Entretanto, considero pertinente aprender um pouco com toda essa literatura disponível (muitas baseadas em pesquisas bem fundamentadas e sérias). Portanto, pensar em uma instituição educacional que considere e que tenha como norte (também) a realização profissional dos seus docentes é fundamental para potencializar os talentos de cada um. Consequentemente, isso colabora para que toda a instituição ganhe em termos de inventividade, de produção intelectual, melhora na qualidade do ensino e no impacto social e comunitário.

Assim, avalio como importante reconhecer a necessidade da instituição educacional, e no caso particular, a UNIVASF, estar sensível a potencializar seus talentos, mas também saber conhecer os entraves que possam impedi-los. Então quais seriam eles? Deixo, portanto, para um próximo momento a discussão desses entraves.

Salvador, 18 de março de 2011.
(acompanhando minha mãe em uma cirurgia no Hospital Santa Isabel). 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

APRENDIZAGENS DE FINAL DE ANO


Duas grandes aprendizagens me marcaram o final de 2010 e o comecinho de 2011. A primeira é saber “abrir mão” das coisas e a segunda é saber fazer escolhas / tomar decisões. As duas estão relacionadas porque ao fazer escolhas se abre mão de algumas coisas. Estas aprendizagens são difíceis para mim, pois sempre acreditava que seria possível conciliar, mas nem sempre... Há coisas inconciliáveis na vida. Ou você vai para um lado ou escolhe o outro caminho ou então passa a vida toda na bifurcação da estrada. Algumas situações ilustram essa minha vivência de fazer escolhas e tomar decisões. A minha saída da pró-reitoria de ensino e a finalização do doutorado. Abri mão de algumas coisas como vender o carro (para custear a viagem ao Canadá), ausentar-me por um tempo do Brasil e de todos, entre outras. Nada fácil.
Ville du Québec, hiver 2011.