terça-feira, 6 de julho de 2010

O AMOR NA RELAÇÃO PROFESSOR ALUNO


Tão desgastado tem sido o uso da palavra amor. Muitas vezes, desgastado porque tem sido utilizado apenas no seu sentido romântico entre um casal apaixonado ou então pelo uso demagógico. Entendo que o sentido da palavra amor está para além do romântico (o englobando inclusive) e, certamente, expresso a partir de um real estado e, portanto, fora do Demagógico.
O amor é o princípio da relação que ajuda o outro a ser, a atualizar-se. O amor está na base do diálogo, da compreensão, do doar-se e do sorriso sereno diante da vida. Mas o amor também está presente no paradoxo da aceitação do que se é e na aposta da transformação. O amor enquanto base e princípio não é uma morada idílica onde a pessoa se encontra permanentemente. O amor pulsa o tempo todo, alimentando-a, mas não descarta a possibilidade da pessoa se enganar, machucar o outro, fazer bobagens em suas relações. Não protege e não há garantias. Não se pode fazer nada em nome do amor. Não em nome do amor. Em nome do amor, nada! O amor é que está em nome, quer dizer, o amor é que se presentifica em todas as relações, sobretudo naquelas que são intensas como as que acontece entre professor e aluno.
Acredito que o amor esteja na base das relações entre professor e aluno. O professor precisa amar seus alunos. Não de forma igual, não os romantizando, não acatando tudo e não pondo os limites necessários. O amor na relação professor aluno é condição necessária para a aprendizagem significativa. Aprender não só tecnicamente, mas aprender para ser. Este é o entendimento maior que o professor pode ter. O aluno não está ali simplesmente para se encher de informações, para desenvolver uma habilidade. Ele está ali, com os seus colegas e ao lado do seu professor para se formar. É lógico que se formar tem a ver com as informações, com o desenvolvimento de habilidades. Formar, entretanto, tem mais. Formar é intimar, é encontrar caminhos, é abertura para encontros com os diferentes. É as vezes conflito, é as vezes faísca e é disso tudo que vem o fruto. Fruto que nasce de relações. É isto que é formar.
Mais uma vez quero colocar distância dos entendimentos distorcidos do amor na relação professor aluno. Não é nada de paparicação, ou de preocupação com os alunos de modo que o professor passa a se sentir o responsável. Nada disso. É simples muitas vezes. É uma atitude, é um jeito de estar com os alunos, é um modo de estar na classe, é uma forma de olhar, é uma postura, é uma compreensão que se tem, é um gosto do se está fazendo.
Não é difícil viver a relação professor aluno a partir dessa base. É natural. Está na gente porque simplesmente nos constituímos via o amor e somos viabilizados pelo amor (apesar de tudo ainda). O que é, em alguns casos, complicado é o entendimento dessa vivência. E aí há tantos motivos... Até mesmo entre os alunos não é evidente a compreensão. Uma vez, após uma discussão com alguns dos meus alunos sobre questões de posicionamentos políticos da vida universitária, disse que os amava. Acho que eles não entenderam e soou como demagógico (acho que eles tiveram até razão em pensar daquele jeito, dadas as circunstâncias). Mas o que quero dizer é que não é fácil as pessoas entenderem. Há professores que rechaçam veementemente isso tudo que estou a dizer. Há outros que endossam de maneira oportunista. Há outros que só assimilam na visão romântica. Há...
Bem, fica aí algo para ser melhor refletido e levado com mais seriedade: o amor na relação entre professor aluno.


 Buenos Aires
Inverno, 2010.

3 comentários:

  1. À esse seu AMOR declarado eu chamo de "amor apaixonado". Creio que na relação professor aluno precisa existir este afeto; sem ele o desafio que temos enquanto formadores perderia muito o sentido ético e estético.

    Seria muito triste e sem graça a nossa carreira... Afff! :-)

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  2. Wagner Passos/UNIVASF30 de agosto de 2010 07:08

    Caro Marcelo,
    Eu aqui me permito discordar de você em alguns aspectos. Sendo extremamente duro, eu diria que, sendo professor, não sou pago para amar ninguém. Não, não estou sendo mal educado... Mas, vendo por outros ângulos, agora de forma mais leve, o que existe?? Existe o aluno ótimo, o bom, o regular, o péssimo, o problemático, o criador de caso... Eu não vou conseguir amar a todos (o amor no seu sentido mais claro possível) mesmo que eu queira. Mas, a contradição é que eu devo um ensino de qualidade a todos, sem distinção. Eu só posso dar esse ensino de qualidade e impessoal se eu tiver amor. Mas não amor pelo aluno (amor esse que seria diferente para cada aluno). Eu tenho que amar a minha profissão (ou vocação). Eu, amando a atividade de ensinar, não vou enxergar esse ou aquele com um amor diferente, mas vou ser capaz de verificar diferenças que, em caso do prejuízo da atividade docente (mesmo que seja o prejuízo de um só indivíduo), eu possa tentar sanar ou repassar a quem possa sanar o problema. E mais, se eu amar o que eu faço, eu vou procurar a melhor forma de fazer. Isso, em uma atividade tão dinâmica como a educação, significa estar senpre aberto às mudanças de uma turma para a outra, por exemplo... Ou até no comportamento de uma mesma turma no tempo em que ela estiver sob minha responsabilidade.
    Essa é só outra maneira de encarar o amor e fazê-lo coletivo, e não individual.

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